Por dois séculos a fortaleza de Aleotir, em Mantétern resistiu a inúmeras tentativas de invasão. Sua muralha alta e robusta representou a segurança que os anões desejavam em suas terras, e também para a sua capital. Homens e elfos elogiavam a gigantesca arquitetura daquele lugar, e sua força. Do alto de suas inúmeras torres as águias e os corvos faziam ninhos. Magias antigas de proteção estavam impregnadas naquelas rochas, e até o sopé da montanha de Húros exibiam inscrições divinas, tão antigas quanto o povo anão. Portões magníficos, com o melhor metal e até centenas de pedras preciosas engastadas, controlavam a passagem de viajantes, comerciantes, exércitos amigos e de reis e rainhas. Sua guarda era inigualável, com anões guerreiros e arqueiros exímios, além de centenas de outros soldados, que se apresentavam rapidamente em qualquer lugar da longa muralha. A fama desses soldados era ainda mais antiga do que a própria fortaleza, mantendo Mantétern longe de conflitos por mais de mil anos.
Mas essa intransponível barreira, que se estendia por toda extensão do estreito vale entre a cordilheira de Húros e a de Gnai Isha, de uma ponta a outra, viu sua queda com o Levante de Amul. As sagradas muralhas foram destruídas, arruinadas, por dragões nefastos e mortos-vivos em horda. As bestas invadiram o vale sagrado, trazendo morte e magia negra para terras acostumadas ao reino da paz. Esse exército horrendo chegou até mesmo à capital Mantétern, que em mais de dois mil anos, jamais vira um poder tão grande ameaçar seu povo. Encurralados na montanha, os anões resistiram, até a súbita retirada de Amul e seu exército. O rei anão já havia morrido, em batalha. Uma imensa dor abateu o povo. E quando, sem a ameaça do inimigo, os soldados voltaram para a fortaleza, seus corações se entristeceram. Tudo eram ruínas, e a magnífica Aleotir havia sido profanada. A única torre resistente em pé abrigava duas famílias, anã e humana, imersas em terror e medo. O relato deles forneceu todas as informações que os Povos Livres tiveram da Grande Investida contra Mantétern.
Longos períodos de invasões, medo, dor, morte e fúria sucederam após essa guerra. Sem a fortaleza o vale estava mais uma vez desprotegido, e centenas de bestas do continente oeste tentavam tomar as terras, e as cavernas. O povo de Mantétern mostrou resistência, e uma improvável aliança com forças de Més foi feita, trazendo um imenso alento em tempos tão difíceis. Sem um rei no poder, os anciões foram os líderes. Não havia tempo para reconstruir, mas somente para resistir. Dessa forma, quando Solari, Dra Revo e Lioteh chamaram, em nada os anões de Mantétern puderam ajudar, nenhum único anão guerreiro puderam enviar, pois já sofriam a sua própria tragédia. E quando chegaram as notícias de que Fradeh já havia destruído a capital Solari, em muito se entristeceu o povo anão. Eles viam tudo isso como maus presságios, mas até aquele fervoroso povo duvidou dos desígnios dos Deuses. Muitos desistiram da Fé, e rumavam, por dentro da cordilheira de Gnai Isha, para o norte gelado. Em Mantétern somente a resistência do digno e bravo povo anão.
segunda-feira, 7 de maio de 2018
sábado, 5 de maio de 2018
Na noite
A chuva não passava. Uma dúvida incomodava Carly. Em sua mente diversas incertezas, como sombras, a resposta não surgiria sem reflexão. Ela já estava olhando para aquela xícara com café por longos minutos, perdida em frases que não se completavam. “E se?”, era a pergunta que ela mais fazia para sua consciência, para sua memória. O frio a incomodava mais, e ela se aninhava em cima daquela poltrona marrom, suas mãos pálidas e sua pele fina. Ela esconde os pés embaixo do cobertor improvisado com o tecido da cortina. Longos nadas respondem suas incertezas. Ela observa ao seu redor, como se procurasse uma ponta solta do novelo de memórias traidoras, com a esperança de um gato atrás de seu brinquedo. Suspiros.
O café está frio. Nenhuma disposição para buscar mais. Além do mais, ela escutava vozes na cozinha, e se ilude com a ideia de que vão lembrar dela naquele isolamento. Seu maior conforto é o fato de estar aquecida. Sua maior desilusão é saber que não há ninguém na cozinha. Ela está longe de conceber algo real de fato com sua mente, e nem sua memória lhe ampara, lhe garante sanidade. Suas dúvidas parecem ser uma extensão da extenuante batalha que sua mente trava todos os dias. Mas ela acredita ter um discernimento do que é real, e do que não é. E, mesmo assim, isso não responde sua pergunta. Só posterga a resolução dela. E a chuva não passava, e isso só lhe garantia mais frio, e a busca de um ninho mais aquecido. O frio era a própria estranheza, a dúvida era o familiar.
Carly olha para o relógio na mesinha ao lado da poltrona. Pouco mais de uma hora e cinco minutos da madrugada. Esteve por muito tempo perdida, sem achar sentido para o seu ser, sem sua resposta. Uma sensação de vazio, habitual, preenche seu corpo. Forçosamente ela estica sua mão pálida para pegar a xícara. O gole do café nada esquenta, nada conforta. Ela suspira. Olha para o teto, e a oposição que a poltrona faz em relação a janela lhe impede de ver a chuva lá fora. “Mas a chuva está aqui dentro”, ela pensa. Mesmo assim, seu ninho não representa mais conforto, e já começa a ficar bem quente ali. Ela estica os pés, e toca o solo devagar. Não está frio. Ela então ergue o tecido da cortina acima da cabeça, e retira-o com o movimento de um toureiro que acabou de esquivar-se de um touro enfurecido. Para seu espanto, não está frio. Isso lhe deixa alerta. Não há vozes na cozinha. Não há o som da chuva lá fora. É noite, mas uma noite quente. A xícara sequer está lá, na mesinha. Será que aquilo tudo era um sonho? Aquela dúvida que havia lhe aprisionado por tanto tempo, aquele frio que lhe oprimiu, as vozes, eram tudo irreais?
Ela sentiu como se um impulso em seus pés. Virou-se para a poltrona. Não havia tecido da cortina. Somente a poltrona marrom aconchegante, com a clara evidência de uso. As formas do corpo, que lentamente iam sumindo, enquanto a espuma macia restabelecia seu formato. Ela estranhou tudo aquilo. Ela havia ficado muito tempo perdida, e mesmo naquele instante sua memória não lhe amparava. Só conseguiu distinguir o relógio na mesinha. Pouco mais de uma hora e sete minutos. Aquela confusão, sensação de coisa nenhuma com qualquer coisa. “Nossa, está tão tarde!”, foi a única coisa que lhe ocorrera. Então ela sai do escritório e se encaminha para o quarto, não sem antes ir até a cozinha e constatar que não há ninguém lá, sequer vozes. Ela olha ao redor, seu pensamento orbita por alguns segundos, daí sai dali. Caminha até o quarto. Abre e fecha a porta, e um sono repentino relaxa seu corpo. Ela olha para a janela, realmente não há mais chuva, mas uma garoa. Estica-se em cima da cama, cobre-se com seu cobertor. Abraça-o, num último resquício de dúvida, vira-se e fecha os olhos. Ela quer o sono. Ela dorme.
terça-feira, 27 de março de 2018
De Shara e Gortag
Quando Maenor completou 8 anos, Mokin contou os desafios que a avó dele, Shara, havia superado. Uma das histórias que Maenor mais gostava era essa.
"Gortag havia procurado Shara em Sépia, pedindo ajuda, ciente dos profundos conhecimentos dela. Ele havia tentado matar toda sua família num acesso de fúria, e por causa disso, seu pai enviou mercenários para o matar. Exilado no deserto de Banideshir, Gortag encontrou uma tribo nômade que viu nele a marca de um amaldiçoado. Com profundo remorso pelos seus erros, ele foi atrás de Shara.
Na casa de Shara havia um amuleto muito antigo, que ela dizia pertencer a um renomado clérigo ermitão, e que aquele item era muito poderoso. Ela diz a Gortag que ele usasse o amuleto por 40 dias, e ao fim desse período, voltasse até ela. Gortag pôs o amuleto, e sentiu um pequeno desconforto, seguido de uma sensação boa. E foi embora.
Quando os 40 dias se passaram, Gortag voltou até Shara, conforme ela havia lhe ordenado. Ela perguntou a ele se alguma vontade de praticar o mal ainda estava dentro dele. Gortag respondeu que nunca havia se sentido tão bem, e em paz. Então Shara pegou seu Aielon, purificou um pote com água e ofereceu a Gortag, pedindo que ele retirasse o amuleto.
No instante em que ele tomou um único gole da água, um aerialinita monstruoso surgiu como uma sombra atrás de Gortag, com chifres e espinhos por todo seu corpo, produzindo um som muito alto, lançando maldições. Shara rapidamente fez diversos sinais com as mãos, e invocou palavras mágicas desconhecidas, e o aerialinita estremeceu. Num estrondo maior ainda a besta se elevou, e toda a vila pôde vê-lo, e grandes nuvens maciças e escuras surgiram acima deles.
Por muitas horas eles permaneceram naquele embate. Magia e contra magia. O terror negro e cinza, contra um resplendor branco e amarelo. Shara realizava muitos sinais com as mãos, e por vezes procurava em seu daereon ingredientes e ali mesmo manipulava poções. Com seu Aielon ela irradiava luzes pulsantes, e as vezes essas magias acalmavam o povo da vila, que mesmo aterrorizado com o gigante aerialinita, só assistia ao embate.
Então, no avançado das horas, num dado momento a besta recebeu um grande golpe, e tombou. Shara estava exaurindo suas forças quando o gigante, abandonando o corpo de Gortag, materializou-se na frente dela. Elevou-se mais uma vez a besta, certa de sua vitória, em frente a sua idosa adversária. Num movimento brutal, ele golpeou Shara como quem esmaga uma formiga, mas tudo que se ouviu foi um estrondo, seguido de um tilintar. Shara havia elevado o amuleto em sua mão, que suportou o golpe, e se partiu em muitos pedaços.
Com um grito aterrorizador a besta se contorceu. Seu corpo se encheu de fissuras, que foram crescendo, e logo haviam rachaduras. O aerialinita estava se partindo, e sua agonia lhe fez tombar por completo. Shara, então, com um último movimento das mãos, erradicou em luz o odioso corpo da besta, restaurando o céu. Uma fina chuva fria caiu. E, abaixo de onde estava a besta, o corpo de Gortag se encontrava, com alguns ferimentos.
Restabelecidos em casas de cura, Shara e Gortag voltaram a se encontrar. Ele estava profundamente agradecido, e enormemente impressionado com o poder daquela mulher. Prometeu riqueza e fama, algo que ela sempre negava. Por fim, Gortag quis saber como ela, uma mulher idosa, havia resistido e derrotado, sozinha, um aerialinita. Ela só lhe explicou que havia preparado o amuleto como um receptáculo, daí então durante os 40 dias a Essência da besta havia ficado ligada ao amuleto. Mesmo assim ela precisava que a besta abandonasse o corpo de Gortag para destrui-la. O fato do gigante ter dado o golpe que quebrou o amuleto ela atribuiu a sorte.
Gortag então pôde voltar para sua família, curado de sua maldição. E a história de Shara foi contada por muitos povos, e seus feitos foram continuados por seu filho Mokin, em Sépia."
"Gortag havia procurado Shara em Sépia, pedindo ajuda, ciente dos profundos conhecimentos dela. Ele havia tentado matar toda sua família num acesso de fúria, e por causa disso, seu pai enviou mercenários para o matar. Exilado no deserto de Banideshir, Gortag encontrou uma tribo nômade que viu nele a marca de um amaldiçoado. Com profundo remorso pelos seus erros, ele foi atrás de Shara.
Na casa de Shara havia um amuleto muito antigo, que ela dizia pertencer a um renomado clérigo ermitão, e que aquele item era muito poderoso. Ela diz a Gortag que ele usasse o amuleto por 40 dias, e ao fim desse período, voltasse até ela. Gortag pôs o amuleto, e sentiu um pequeno desconforto, seguido de uma sensação boa. E foi embora.
Quando os 40 dias se passaram, Gortag voltou até Shara, conforme ela havia lhe ordenado. Ela perguntou a ele se alguma vontade de praticar o mal ainda estava dentro dele. Gortag respondeu que nunca havia se sentido tão bem, e em paz. Então Shara pegou seu Aielon, purificou um pote com água e ofereceu a Gortag, pedindo que ele retirasse o amuleto.
No instante em que ele tomou um único gole da água, um aerialinita monstruoso surgiu como uma sombra atrás de Gortag, com chifres e espinhos por todo seu corpo, produzindo um som muito alto, lançando maldições. Shara rapidamente fez diversos sinais com as mãos, e invocou palavras mágicas desconhecidas, e o aerialinita estremeceu. Num estrondo maior ainda a besta se elevou, e toda a vila pôde vê-lo, e grandes nuvens maciças e escuras surgiram acima deles.
Por muitas horas eles permaneceram naquele embate. Magia e contra magia. O terror negro e cinza, contra um resplendor branco e amarelo. Shara realizava muitos sinais com as mãos, e por vezes procurava em seu daereon ingredientes e ali mesmo manipulava poções. Com seu Aielon ela irradiava luzes pulsantes, e as vezes essas magias acalmavam o povo da vila, que mesmo aterrorizado com o gigante aerialinita, só assistia ao embate.
Então, no avançado das horas, num dado momento a besta recebeu um grande golpe, e tombou. Shara estava exaurindo suas forças quando o gigante, abandonando o corpo de Gortag, materializou-se na frente dela. Elevou-se mais uma vez a besta, certa de sua vitória, em frente a sua idosa adversária. Num movimento brutal, ele golpeou Shara como quem esmaga uma formiga, mas tudo que se ouviu foi um estrondo, seguido de um tilintar. Shara havia elevado o amuleto em sua mão, que suportou o golpe, e se partiu em muitos pedaços.
Com um grito aterrorizador a besta se contorceu. Seu corpo se encheu de fissuras, que foram crescendo, e logo haviam rachaduras. O aerialinita estava se partindo, e sua agonia lhe fez tombar por completo. Shara, então, com um último movimento das mãos, erradicou em luz o odioso corpo da besta, restaurando o céu. Uma fina chuva fria caiu. E, abaixo de onde estava a besta, o corpo de Gortag se encontrava, com alguns ferimentos.
Restabelecidos em casas de cura, Shara e Gortag voltaram a se encontrar. Ele estava profundamente agradecido, e enormemente impressionado com o poder daquela mulher. Prometeu riqueza e fama, algo que ela sempre negava. Por fim, Gortag quis saber como ela, uma mulher idosa, havia resistido e derrotado, sozinha, um aerialinita. Ela só lhe explicou que havia preparado o amuleto como um receptáculo, daí então durante os 40 dias a Essência da besta havia ficado ligada ao amuleto. Mesmo assim ela precisava que a besta abandonasse o corpo de Gortag para destrui-la. O fato do gigante ter dado o golpe que quebrou o amuleto ela atribuiu a sorte.
Gortag então pôde voltar para sua família, curado de sua maldição. E a história de Shara foi contada por muitos povos, e seus feitos foram continuados por seu filho Mokin, em Sépia."
terça-feira, 13 de março de 2018
Naqueles dias
Charles franzia a testa, com seu óculos de leitura na ponta do nariz, cabeça erguida. Aquelas malditas letras, tão pequenas. Se não fosse sua atenção à leitura ele não perceberia que Ana estava esbravejando e esperneando na cama, mas ela realmente se esforçava para ser percebida. Ela se arma com um travesseiro, ele só olha por cima dos ombros. Ela ameaça. Ele dobra o papel, resignado, com um sorrisinho besta. Fica de pé, estica a coluna calmamente, enquanto ouve Ana incontrolável gritar xingamentos. Ele esboça falar algo, e isso a deixa com mais furor, mas sua cabeça pende, novamente resignado.
Aquele barulho conta-gotas do vazamento da pia do banheiro lhe chama atenção. Ele precisa divagar um pouco para escapar da fúria de Ana. Alguma coisa para ocupar seu dia de folga. Quando projeta seu corpo na direção da porta, um travesseiro acerta sua nuca. Ele fecha os olhos. Abre os olhos. Fecha os olhos, imagina ele mesmo consertando o vazamento. Onde estarão as ferramentas? Sem esboçar nenhuma reação à Ana, ele sai do quarto, sob protestos. Ele deixa a porta aberta, afim de ouvir aquele show escandaloso.
No banheiro ele para bem em frente a pia. Sua disposição é mínima. Finalmente aquela sensação de sair correndo diminui. Apesar dos gritos, ele apura os ouvidos, põe a mão embaixo da pia e com o tato identifica a origem do vazamento. Uma conexão que está frouxa. Ele firma os dedos e torce. Sua imaginação o remete às máquinas das fábricas onde ele estagiou quando jovem. Não haveria nenhuma máquina mais perfeita para realizar aquela atividade que ele executava tão bem: agachar-se em frente a uma pia, esticar o braço para trás dela, sentir a conexão frouxa e a água que por ali escorre, moderar a pressão dos dedos com o pulso virado para cima, e torcer com um torque preciso até estancar o vazamento.
Aquela sensação de felicidade durou alguns segundos. Ana estava de pé, em frente a porta do banheiro, calcinha e sutiã, e gesticulava muito, aos berros. Charles a observa, sentado no chão do banheiro. Ele admira o corpo dela por milésimos, logo em seguida voltando sua atenção pro chão, numa atitude passiva. Ela vai até a cama e volta, gesticula, faz diversas caretas, vai até a cama e volta, bufa diversas vezes. E Charles ali, sentado no chão, com o corpo inerte, como uma marionete sem o manipulador.
Num dado momento Ana para, e silencia. Ela mergulha seu olhar naquele homem franzino, sentado no chão do banheiro. Respira fundo algumas vezes. Não esboça um movimento. Uma sensação de medo toma conta de Charles. Ele pensa que ela pode reagir violentamente. Sente uma vontade de “se abrigar” dentro do box do banheiro, com toda sua covardia. Ele está acuado. Alguns segundos de expectativa. Ana finalmente se move. Ele percebe que ela está olhando para o espelho, uma feição triste lhe abate. Charles percebe que a ira se foi, mas não tem coragem de levantar, ou falar alguma coisa. Ela somente toca em seu rosto, marcado por grandes olheiras. Finalmente ela sai dali, e parece afundar na cama.
Charles levanta devagar, incrédulo. Apoia-se nas paredes, pernas bambas, um cansaço repentino. Toda aquela situação lhe cansava. Sua cabeça começa a doer, ele se sente incapacitado, esgotado, consumido, explorado. Dá uns passos e já está de frente a cama. Ana está lá, jogada, espalhada, igualmente cansada, choramingando. Ele pensa que o pior já passou, e se atreve a ajoelhar-se na cama. Ela não reage. Ele arruma os joelhos unidos e tomba na cama, exausto. Um estranho silêncio toma conta do quarto. É um sábado, e uma leve chuva adormece os dois. Paz.
Aquele barulho conta-gotas do vazamento da pia do banheiro lhe chama atenção. Ele precisa divagar um pouco para escapar da fúria de Ana. Alguma coisa para ocupar seu dia de folga. Quando projeta seu corpo na direção da porta, um travesseiro acerta sua nuca. Ele fecha os olhos. Abre os olhos. Fecha os olhos, imagina ele mesmo consertando o vazamento. Onde estarão as ferramentas? Sem esboçar nenhuma reação à Ana, ele sai do quarto, sob protestos. Ele deixa a porta aberta, afim de ouvir aquele show escandaloso.
No banheiro ele para bem em frente a pia. Sua disposição é mínima. Finalmente aquela sensação de sair correndo diminui. Apesar dos gritos, ele apura os ouvidos, põe a mão embaixo da pia e com o tato identifica a origem do vazamento. Uma conexão que está frouxa. Ele firma os dedos e torce. Sua imaginação o remete às máquinas das fábricas onde ele estagiou quando jovem. Não haveria nenhuma máquina mais perfeita para realizar aquela atividade que ele executava tão bem: agachar-se em frente a uma pia, esticar o braço para trás dela, sentir a conexão frouxa e a água que por ali escorre, moderar a pressão dos dedos com o pulso virado para cima, e torcer com um torque preciso até estancar o vazamento.
Aquela sensação de felicidade durou alguns segundos. Ana estava de pé, em frente a porta do banheiro, calcinha e sutiã, e gesticulava muito, aos berros. Charles a observa, sentado no chão do banheiro. Ele admira o corpo dela por milésimos, logo em seguida voltando sua atenção pro chão, numa atitude passiva. Ela vai até a cama e volta, gesticula, faz diversas caretas, vai até a cama e volta, bufa diversas vezes. E Charles ali, sentado no chão, com o corpo inerte, como uma marionete sem o manipulador.
Num dado momento Ana para, e silencia. Ela mergulha seu olhar naquele homem franzino, sentado no chão do banheiro. Respira fundo algumas vezes. Não esboça um movimento. Uma sensação de medo toma conta de Charles. Ele pensa que ela pode reagir violentamente. Sente uma vontade de “se abrigar” dentro do box do banheiro, com toda sua covardia. Ele está acuado. Alguns segundos de expectativa. Ana finalmente se move. Ele percebe que ela está olhando para o espelho, uma feição triste lhe abate. Charles percebe que a ira se foi, mas não tem coragem de levantar, ou falar alguma coisa. Ela somente toca em seu rosto, marcado por grandes olheiras. Finalmente ela sai dali, e parece afundar na cama.
Charles levanta devagar, incrédulo. Apoia-se nas paredes, pernas bambas, um cansaço repentino. Toda aquela situação lhe cansava. Sua cabeça começa a doer, ele se sente incapacitado, esgotado, consumido, explorado. Dá uns passos e já está de frente a cama. Ana está lá, jogada, espalhada, igualmente cansada, choramingando. Ele pensa que o pior já passou, e se atreve a ajoelhar-se na cama. Ela não reage. Ele arruma os joelhos unidos e tomba na cama, exausto. Um estranho silêncio toma conta do quarto. É um sábado, e uma leve chuva adormece os dois. Paz.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Eu não gosto de você!
Inflamável.
Essa única palavra escrita a mão com uma tinta vermelha, com um sombreado preto igualmente feito a mão, bem no meio da página. Há uma gravura de fogueira na altura do rodapé, um desenho bem rudimentar, como os que são encontrados nos lugares onde os homens das cavernas se abrigavam do frio e do perigo. Eu tenho a impressão de ter visto as letras se moverem, flamularem, por um breve momento. Uma única página com uma única palavra.
Lembro de quando abri o livro aleatoriamente e havia a palavra “volte” escrita em maiúsculas e em forma de rabiscos e rasgões. Aquilo me assustou de verdade. Era como se o livro estivesse me dado um comando, uma ordem expressa. Foi o que eu imaginei. Não sabia nada do que sei hoje. Esse simples mistério me deixou meses sem querer tocar no livro, sem vontade de ler novamente suas páginas misteriosas.
Se ao menos eu ainda pudesse ir naquele sebo maldito! Eu desconfio que aquele homem sabe mais do que aparenta, com aquele sorrisinho antipático e roupas de inglês em velório. Aquele lugar ainda me inspira curiosidade, assim como aquela praça, aquele banco de praça, aquelas velhas de cabelo branco. Acho que estou pensando demais no livro, nesse mistério todo. Talvez eu deva me concentrar nas entrelinhas. Acabar com essa neurose de que há um livro que se comunica comigo, e que tudo ao seu redor está envolto numa trama. Vou prosseguir a leitura.
Inflamável! - digo, em voz alta.
Num grande clarão surgem chamas em meu escritório! Labaredas amarelas e vermelhas, um calor infernal lambe meu rosto, eu me protejo com as mãos, solto o livro, que cai aos meus pés. Olho ao meu redor e todos os móveis e livros estão em chamas, e me sinto num turbilhão de fogo e caos. A madeira crepita, e faíscas voam com lufadas de vento que vem da janela. Minha escrivaninha me impede de pular, há ali chamas realmente muito altas e vermelhas. Eu tento gritar por Elza, mas o ar quente invade meus pulmões, e começo a tossir. Encosto minhas mãos na boca, e vejo meus dedos em carne viva, com a pele queimada. Minha carne fede a fumaça. Quanta agonia.
Eu olho para o livro e ele está lá, coberto de chamas que correm de suas páginas, como se ele estivesse regendo aquele inferno vermelho. Tento desesperadamente gritar por Elza, mas a imensa dor das queimaduras me impedem. Estou em chamas! Tento me virar para a porta, mas minhas pernas parecem estar soldadas ao chão crepitante. Eu tento gritar por Elza, e meu maxilar se desprende de meu crânio. Estou em chamas! Daí, num movimento involuntário eu me ajoelho em frente ao livro, e meus braços o alcançam. Esse livro maldito, vou jogá-lo pela janela! Eu o tomo nas mãos, e então a próxima página desliza sozinha para a esquerda.
Num farfalhar as labaredas se dissipam, tudo se restaura. A dor agora parece um gélido abraço de uma brisa que entra pela janela, aberta e voltada para o meu jardim. O livro está intacto, assim como meus braços e pernas, e minha roupa. Os insetos das bromélias sobrevoam meu rosto, e o cheiro do chá que Elza deixou para mim invade minhas narinas, e esqueço o fedor de carne queimada. Me assusto horrivelmente! Que magia negra é aquela? Largo o livro para longe, e ele cai, pesado, fechado como um cofre seguro. Minha sensação é de terror! O que foi aquela alucinação?
Eu tenho que me livrar desse livro maldito!
Cheers!
Essa única palavra escrita a mão com uma tinta vermelha, com um sombreado preto igualmente feito a mão, bem no meio da página. Há uma gravura de fogueira na altura do rodapé, um desenho bem rudimentar, como os que são encontrados nos lugares onde os homens das cavernas se abrigavam do frio e do perigo. Eu tenho a impressão de ter visto as letras se moverem, flamularem, por um breve momento. Uma única página com uma única palavra.
Lembro de quando abri o livro aleatoriamente e havia a palavra “volte” escrita em maiúsculas e em forma de rabiscos e rasgões. Aquilo me assustou de verdade. Era como se o livro estivesse me dado um comando, uma ordem expressa. Foi o que eu imaginei. Não sabia nada do que sei hoje. Esse simples mistério me deixou meses sem querer tocar no livro, sem vontade de ler novamente suas páginas misteriosas.
Se ao menos eu ainda pudesse ir naquele sebo maldito! Eu desconfio que aquele homem sabe mais do que aparenta, com aquele sorrisinho antipático e roupas de inglês em velório. Aquele lugar ainda me inspira curiosidade, assim como aquela praça, aquele banco de praça, aquelas velhas de cabelo branco. Acho que estou pensando demais no livro, nesse mistério todo. Talvez eu deva me concentrar nas entrelinhas. Acabar com essa neurose de que há um livro que se comunica comigo, e que tudo ao seu redor está envolto numa trama. Vou prosseguir a leitura.
Inflamável! - digo, em voz alta.
Num grande clarão surgem chamas em meu escritório! Labaredas amarelas e vermelhas, um calor infernal lambe meu rosto, eu me protejo com as mãos, solto o livro, que cai aos meus pés. Olho ao meu redor e todos os móveis e livros estão em chamas, e me sinto num turbilhão de fogo e caos. A madeira crepita, e faíscas voam com lufadas de vento que vem da janela. Minha escrivaninha me impede de pular, há ali chamas realmente muito altas e vermelhas. Eu tento gritar por Elza, mas o ar quente invade meus pulmões, e começo a tossir. Encosto minhas mãos na boca, e vejo meus dedos em carne viva, com a pele queimada. Minha carne fede a fumaça. Quanta agonia.
Eu olho para o livro e ele está lá, coberto de chamas que correm de suas páginas, como se ele estivesse regendo aquele inferno vermelho. Tento desesperadamente gritar por Elza, mas a imensa dor das queimaduras me impedem. Estou em chamas! Tento me virar para a porta, mas minhas pernas parecem estar soldadas ao chão crepitante. Eu tento gritar por Elza, e meu maxilar se desprende de meu crânio. Estou em chamas! Daí, num movimento involuntário eu me ajoelho em frente ao livro, e meus braços o alcançam. Esse livro maldito, vou jogá-lo pela janela! Eu o tomo nas mãos, e então a próxima página desliza sozinha para a esquerda.
Num farfalhar as labaredas se dissipam, tudo se restaura. A dor agora parece um gélido abraço de uma brisa que entra pela janela, aberta e voltada para o meu jardim. O livro está intacto, assim como meus braços e pernas, e minha roupa. Os insetos das bromélias sobrevoam meu rosto, e o cheiro do chá que Elza deixou para mim invade minhas narinas, e esqueço o fedor de carne queimada. Me assusto horrivelmente! Que magia negra é aquela? Largo o livro para longe, e ele cai, pesado, fechado como um cofre seguro. Minha sensação é de terror! O que foi aquela alucinação?
Eu tenho que me livrar desse livro maldito!
Cheers!
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Primeiro dia da Crise
Seth acorda John com um toque de alarme. Ele abre os olhos e aquele holograma está lá diante de seus olhos, exibindo a palavra “MENSAGEM” com letras vermelhas. “Bom dia senhor”, diz Seth, e John levanta da cama com o rosto ainda sonolento. “Relatório do dia...”, e Seth responde “Sem novas notícias, senhor”. “Relatório da fábrica”, e Seth responde “Relatórios inconsistentes ou em andamento. São 6 horas da manhã, senhor. Há uma mensagem urgente da Base”. John levanta o olhar, arruma o cabelo e diz “leia a mensagem para mim, Seth”.
“Graves danos ao seu protótipo. Encaminhamos para você um DNA desconhecido encontrado na zona de testes para averiguação. Aguardamos sua análise e enviamos o vídeo do incidente. Não houve comprometimento dos testes. PeTYvR.”
“Abrir vídeo da mensagem, Seth, por favor”. John vê um anDERIS em pedaços, e grandes crateras fumegantes. Ele aproxima a imagem, vê centenas de Modificados mortos, alguns triturados. O vídeo para e foca numa das crateras, onde se vê um DNA grande e estranho, e os cientistas juntos a peça. A camera se volta e foca em mais pedaços do anDERIS, visivelmente dilacerados, com centenas de pequenas peças espalhadas. “Algo destruiu meu protótipo”, ele pensa.
“Preparar o Lab 3, Seth. Envie especificações 2694 para a Base e solicite todos os relatórios da perícia do protótipo para mim. Não sei porque eles não enviaram o protótipo pra cá, então eu quero saber tudo sobre. Comunique-se com Lara e veja se ela pode colaborar. Ah, e não esqueça de deixar todos os módulos no laboratório para a análise desse DNA”, diz John, se encaminhando para o banheiro, semblante preocupado. “E ligue para o Marc”.
Quatro minutos de banho e um silêncio de Seth que perturba John. “Relatório, Seth”, diz John, curioso. “Preparando Lab 3. Especificações 2694 enviadas para a Base e as solicitações da perícia do protótipo enviadas. Módulos DNA preparados em sub-56. Lara e o telefone de Marc não respondem, senhor”
John estranha essa última informação. Veste suas roupas, abre sua pasta, confere o conteúdo, fecha a pasta, põe seu NOPAC no pulso e desce as escadas, rumo ao elevador.
“Graves danos ao seu protótipo. Encaminhamos para você um DNA desconhecido encontrado na zona de testes para averiguação. Aguardamos sua análise e enviamos o vídeo do incidente. Não houve comprometimento dos testes. PeTYvR.”
“Abrir vídeo da mensagem, Seth, por favor”. John vê um anDERIS em pedaços, e grandes crateras fumegantes. Ele aproxima a imagem, vê centenas de Modificados mortos, alguns triturados. O vídeo para e foca numa das crateras, onde se vê um DNA grande e estranho, e os cientistas juntos a peça. A camera se volta e foca em mais pedaços do anDERIS, visivelmente dilacerados, com centenas de pequenas peças espalhadas. “Algo destruiu meu protótipo”, ele pensa.
“Preparar o Lab 3, Seth. Envie especificações 2694 para a Base e solicite todos os relatórios da perícia do protótipo para mim. Não sei porque eles não enviaram o protótipo pra cá, então eu quero saber tudo sobre. Comunique-se com Lara e veja se ela pode colaborar. Ah, e não esqueça de deixar todos os módulos no laboratório para a análise desse DNA”, diz John, se encaminhando para o banheiro, semblante preocupado. “E ligue para o Marc”.
Quatro minutos de banho e um silêncio de Seth que perturba John. “Relatório, Seth”, diz John, curioso. “Preparando Lab 3. Especificações 2694 enviadas para a Base e as solicitações da perícia do protótipo enviadas. Módulos DNA preparados em sub-56. Lara e o telefone de Marc não respondem, senhor”
John estranha essa última informação. Veste suas roupas, abre sua pasta, confere o conteúdo, fecha a pasta, põe seu NOPAC no pulso e desce as escadas, rumo ao elevador.
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
O Ofício do Pai Solteiro
Marc entra na locadora e procura aquela fita do filme predileto de seus filhos. Pela enésima vez vai tocar aquela música melosa novamente, mas enquanto o filme passa ele consegue ter tempo para focar nos seus trabalhos. 82 minutos de paz e uma provável trégua entre os irmãos. Pior seria a gritaria de uma sessão de vídeo game...
A atendente da locadora parece doente. Realmente seu nariz está vermelho, em contraste àquele branco amarelado de uma moça que abomina sair ao sol. Suas pálpebras estão levemente inchadas, e ela estanca com um lenço a coriza. Visão perfeita antes do almoço.
Corredor das fitas infantis. Filme de monstros fofinhos, sobre amizade, um musical, outro musical, um do Frankenstein adolescente, musical, Ursinho Pooh, gospel para crianças, dinossauros fofinhos. Cadê o filme predileto? Procura mais, título após título. Nada. Última prateleira. Um terrível filme sobre ratos que salvam a cidade de gatos piratas, porcaria. Um filme sobre a Amazônia, razoável. Nenhuma pista do filme predileto.
Vai até o balcão, onde a atendente já o fita pacientemente. “Bom dia”, ela diz. Ele pede que ela consulte pelo filme, ela já responde “alugado, senhor”. Ela já sabia a pergunta. Ele já temia a resposta. E agora? Um impulso toma conta de sua mente. Vai procurar o mais próximo que ele encontrar do enredo do filme predileto. Nova missão, novo desafio. Tantos títulos, ele conhece alguns, mas nenhum chega perto de ser parecido com o predileto.
E agora? Vai perder um dia de trabalho porque não consegue domar o ímpeto dos filhos? Ele começa uma espiral de pensamentos, nenhum deles lhe garante paz e foco. Só maquinações e mais ideias. Ele não pensa em fugir. Não, ele já superou essa fase. Está seguro que vai conseguir algo para oferecer. Seus filhos não são monstros, só um pouco hiperativos.
Despede-se da atendente. Desce a rampa com maquinações. Entra no carro com mais dúvidas. Diabo de fita, da próxima vez ele vai escondê-la na sessão de ficção científica. Uma parte de si agradece por não ter que ouvir a tal música do filme, ela é realmente chata. Tira sua atenção, e quando percebe, está cantarolando ou assobiando a melodia. E isso tira seu foco.
No caminho de casa ele recebe um SMS. É seu filho mais velho. “O TÉO ESTÁ AQUI EM CASA. PODEMOS USAR O TOCA CD”, assim mesmo, sem acento. Ele acelera. A vizinha ficou tomando de conta, ela pode ter saído, eles vão bagunçar a casa. Téo é um outro vizinho, de uma vila ao lado. Bom menino, mas tão arteiro quanto seus dois filhos combinados. Uma sensação de urgência lhe acomete, sua casa está a duas quadras.
Para o carro. Desce do carro e sobe as escadas, simulando alguma calma. Imagina, por um milésimo, a casa em ruínas e um Toca CD em chamas e os meninos assando marshmallows espetados nas costelas da vizinha. Abre a porta de casa e o susto: 3 crianças sentadas no sofá, limpas, caladas, cada um com um pequeno pote com pipoca e um filme de guerreiros estelares passando na tela. Maravilha! Como foi tão fácil? O Toca CD está intacto. A vizinha se encarrega de explicar como conseguiu convencê-los. É o suficiente.
Marc entra em seu escritório mal arranjado na sala de jantar. Está aliviado. As maquinações vão se dissipando, a sensação de urgência vai se tornando em pequenas risadinhas no canto da boca, a agonia se torna alegria de ver que está tudo sob controle. Será um dia produtivo. Agradece a vizinha, que se despede. Vamos ao trabalho.
Senta em frente ao computador, apruma os dedos no teclado. Foco. Foco no trabalho.
Cheers!
A atendente da locadora parece doente. Realmente seu nariz está vermelho, em contraste àquele branco amarelado de uma moça que abomina sair ao sol. Suas pálpebras estão levemente inchadas, e ela estanca com um lenço a coriza. Visão perfeita antes do almoço.
Corredor das fitas infantis. Filme de monstros fofinhos, sobre amizade, um musical, outro musical, um do Frankenstein adolescente, musical, Ursinho Pooh, gospel para crianças, dinossauros fofinhos. Cadê o filme predileto? Procura mais, título após título. Nada. Última prateleira. Um terrível filme sobre ratos que salvam a cidade de gatos piratas, porcaria. Um filme sobre a Amazônia, razoável. Nenhuma pista do filme predileto.
Vai até o balcão, onde a atendente já o fita pacientemente. “Bom dia”, ela diz. Ele pede que ela consulte pelo filme, ela já responde “alugado, senhor”. Ela já sabia a pergunta. Ele já temia a resposta. E agora? Um impulso toma conta de sua mente. Vai procurar o mais próximo que ele encontrar do enredo do filme predileto. Nova missão, novo desafio. Tantos títulos, ele conhece alguns, mas nenhum chega perto de ser parecido com o predileto.
E agora? Vai perder um dia de trabalho porque não consegue domar o ímpeto dos filhos? Ele começa uma espiral de pensamentos, nenhum deles lhe garante paz e foco. Só maquinações e mais ideias. Ele não pensa em fugir. Não, ele já superou essa fase. Está seguro que vai conseguir algo para oferecer. Seus filhos não são monstros, só um pouco hiperativos.
Despede-se da atendente. Desce a rampa com maquinações. Entra no carro com mais dúvidas. Diabo de fita, da próxima vez ele vai escondê-la na sessão de ficção científica. Uma parte de si agradece por não ter que ouvir a tal música do filme, ela é realmente chata. Tira sua atenção, e quando percebe, está cantarolando ou assobiando a melodia. E isso tira seu foco.
No caminho de casa ele recebe um SMS. É seu filho mais velho. “O TÉO ESTÁ AQUI EM CASA. PODEMOS USAR O TOCA CD”, assim mesmo, sem acento. Ele acelera. A vizinha ficou tomando de conta, ela pode ter saído, eles vão bagunçar a casa. Téo é um outro vizinho, de uma vila ao lado. Bom menino, mas tão arteiro quanto seus dois filhos combinados. Uma sensação de urgência lhe acomete, sua casa está a duas quadras.
Para o carro. Desce do carro e sobe as escadas, simulando alguma calma. Imagina, por um milésimo, a casa em ruínas e um Toca CD em chamas e os meninos assando marshmallows espetados nas costelas da vizinha. Abre a porta de casa e o susto: 3 crianças sentadas no sofá, limpas, caladas, cada um com um pequeno pote com pipoca e um filme de guerreiros estelares passando na tela. Maravilha! Como foi tão fácil? O Toca CD está intacto. A vizinha se encarrega de explicar como conseguiu convencê-los. É o suficiente.
Marc entra em seu escritório mal arranjado na sala de jantar. Está aliviado. As maquinações vão se dissipando, a sensação de urgência vai se tornando em pequenas risadinhas no canto da boca, a agonia se torna alegria de ver que está tudo sob controle. Será um dia produtivo. Agradece a vizinha, que se despede. Vamos ao trabalho.
Senta em frente ao computador, apruma os dedos no teclado. Foco. Foco no trabalho.
Cheers!
sexta-feira, 26 de maio de 2017
O Sábio no Exílio
O sábio passou seus primeiros anos de exílio numa comunidade pobre, junto a pessoas que lhe faziam dezenas de perguntas todos os dias. Ele experimentava, naquele lugar, a proximidade com a natureza, o privilégio de contemplação ociosa, a paz reconfortante. Ele não possuía pupilos, somente as muitas crianças que lhe acompanhavam durante suas longas caminhadas.
Um dia o governador lhe procurou. Um aparato muito grande garantia a segurança dele, e o sábio se desvencilhou de muitos constrangimentos a população propondo que essa reunião se desse em um lugar ermo. Ali ninguém poderia interromper a fala dos dois. O governador acatou a proposta, afim de consultar o sábio. E assim, por 3 dias, um perguntou e o outro respondeu.
Cheers!
Um dia o governador lhe procurou. Um aparato muito grande garantia a segurança dele, e o sábio se desvencilhou de muitos constrangimentos a população propondo que essa reunião se desse em um lugar ermo. Ali ninguém poderia interromper a fala dos dois. O governador acatou a proposta, afim de consultar o sábio. E assim, por 3 dias, um perguntou e o outro respondeu.
Cheers!
terça-feira, 23 de maio de 2017
Rascunhando #1
Uma
noite sem sono e as horas pareciam tão lentas, uma sensação ruim
me tirou da cama, estou sonolento, mas alerta. Pela janela ouço o
som dos carros passando na avenida movimentada lá embaixo, e o som
dos gatos miando nos telhados dos comércios ao lado do edifício
onde moro. Ligo a televisão por puro hábito, olhar pela janela se
mostra mais interessante. Confiro as horas no relógio pendurado na
parede, um daqueles itens que você vê lindo nas revistas de
arquitetura, compra e depois se arrepende pelo preço tão alto por
uma função tão banal. Já são 23:38 da madrugada, eu me estico em
frente a janela e dou uma observada no que se passa. Tédio.
As
ruas estão molhadas pela chuva que castigou a cidade durante a tarde
toda, os carros passam e aquele chiado que os pneus produzem me faz
lembrar de quando eu era mais novo e queria comprar um carro. Típico
adolescente, querendo impressionar as pessoas erradas mas evitando as
pessoas certas. Por pouco não guardo o dinheiro da faculdade. Hoje
eu poderia ter um carro, mas sem diploma dificilmente teria um
apartamento. Um sacrifício recompensado, penso eu. Os bares não me
conheceram, as pilhas de livros eram meu travesseiro. Então observo
um carro popular passando devagar, provavelmente velho e com
defeitos. Penso se aquela pessoa dirigindo tem um diploma. Quem sabe?
domingo, 30 de abril de 2017
Computando Dados: Yor
Computando
os dados. Yor estava sentada na calçada em frente a sua casa,
vestindo aquele moletom velho e puído, um sorriso estranho no rosto
que encarava quem passava. Ela esperava o entregador de jornal, ávida
pelas notícias do plantão policial. Amava a tragédia e a
imperfeição com que os crimes eram tão evidentemente elucidados
pela polícia. Apesar disso ela tinha uma queda pelos bandidos, e
muito frequente “torcia” para que algum criminoso em fuga não
fosse capturado ou que um crime sem solução permanecesse sem
solução. Ela guardava as matérias num fichário, a maioria com
notas e até alguns desenhos, e as “mais interessantes” ficavam
num arquivo de três gavetas, organizadas por data, jornal ou nome do
criminoso. Ela nunca organizava por crime. Acreditava que crime é
crime, tanto faz se é um sequestro ou um furto.
A
mãe de Yor, Jezebel, acredita que sua filha será uma importante
investigadora no futuro, e até apoia o hobby da filha. O pai de Yor
é um contador de nome Zacarias. Nunca prestou atenção em como a
filha gastava seu tempo livre, mas já estava até acostumado em ser
o segundo a ler os jornais. Yor possui um irmão, Orven, quatro anos
mais novo que ela, e seu principal ouvinte e companheiro.
Computando
os dados. Yor estava na casa de sua amiga e vizinha Gir, falando de
garotos, e folheando essas revistas adolescentes. Gir estava servindo
de cupido, e havia convidado Leto, um rapaz da sua igreja, para sua
casa. Yor havia pedido o encontro, que não poderia acontecer na sua
casa por conta da pentelhice de Orven e, claro, porque não poderia
ficar a sós com um rapaz em seu quarto. Tudo dependia dos pais de
Gir chegarem no mesmo horário de sempre e não acabarem com o
encontro. Yor estava sem calcinha e vestindo uma camisa de hóquei, e
calculara cada segundo de seu encontro com Leto. As duas combinavam
detalhes quando a campainha soou.
Um
rapaz educado, de fala macia, com grandes olhos castanhos. Leto
trouxe duas pizzas, provavelmente por não saber do encontro às
escuras que Gir promoveu, e por achar que seria somente uma tarde de
lanche e filme. Ficou um pouco desconfortável quando soube que os
pais de Gir não estavam em casa, e mais ainda constrangido quando as
duas o convidaram para subir para o quarto. Inventou uma pequena
tosse e perguntou pelo banheiro. Lá dentro ele manda uma mensagem
para um amigo: “ESTOU NUM QUARTO COM DUAS GAROTAS!! UMA DELAS FEZ
QUESTÃO DE MOSTRAR QUE ESTÁ SEM CALCINHA!!! FODA NÃO TER TRAZIDO
CAMISINHA!!! DEPOIS MANDO FOTOS”. A mensagem foi enviada e
visualizada. Em segundos a resposta: “Para de bater punheta, porra!
Quero foto nenhuma não!”.
Computando
os dados. Yor está no shopping afim de comprar um edredom de
presente para seu irmão. Os preços estão muito elevados. Na sua
mente ela pensa “poderia roubar facilmente pela área de descarga
de produtos”, mas daí ela lembra que em todo lugar existem câmeras
de segurança. Isso a deixa aliviada porque ela se preocupa de não
deixar esses pensamentos criminosos crescerem dentro dela. Mesmo
assim ela tem uma sensação de que pensar assim é algo natural, e
que ela não está sozinha. Então ela escolhe o edredom, leva até o
caixa e efetua o pagamento, vendo ir embora boa parte de sua mesada.
Nada mal, Orven merece.
Na
festa do aniversário de Orven o bolo era no tema de um filme de ação
onde homens falam com carros que se transformam em robôs. Gir e Leto
vieram, e trouxeram presentes. Yor foi bem cerimonial com Leto e
tratou de se isolar em seu quarto, em meio aos seus arquivos. Jezebel
estava radiante num vestido amarelo e seu marido Zacarias era o pai
mais desastrado da face da terra. O pobre pai havia quebrado a
vidraça da janela pondo uma escada afim de colar os balões da
festa, deixado o frango muito além do tempo no forno, deixando a
casa com aquele odor de carne queimada e, sem querer, quebrado um dos
presentes de Orven. Mesmo assim ele ria e contava piadas aleatórias
para os convidados. No final da tarde todos foram embora e sobrara
mais de dois terços do bolo, e muitos salgadinhos. Orven agradeceu.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Brainstorm #1
Solange é apaixonada por Maurício desde o tempo da escola, mas nunca teve coragem pra tentar algo com o rapaz. Maurício trabalha como técnico de informática numa loja de departamentos, e completou 6 anos lá em Outubro passado. A loja de departamentos se chama Incrível e está passando por uma crise financeira, o dono já está pensando em fechar algumas filiais no estado. Todas quartas e quintas o dono da Incrível janta no restaurante de sua ex mulher, sendo essa a maneira que ele tem de estar próximo da mãe dos seus 3 filhos. Um acidente de moto vitimou um desses filhos ano passado, e hoje ele necessita fazer fisioterapia para restabelecer os movimentos das pernas. A fisioterapeuta dele participa de um grupo de oração na igreja que ela frequenta desde menina, sempre nas segundas. A melhor amiga dela está estudando Enfermagem numa conceituada universidade da cidade, a inspiração parte de uma história da família onde um médico salvou a vida de sua avó. Em 1977 a avó dessa menina estava em um cruzeiro, e ela conheceu as Bahamas com um amigo de infância, que hoje é seu marido. Foi nesse mesmo cruzeiro que João foi “concebido”, e até hoje seus pais brincam ao dizer que ele não tem país, que ele é internacional. A palavra “internacional” é citada 81 vezes no livro “A Crise Humanitária e a Revolução dos Imigrantes”, do cientista de política externa Abdel Sharaf. Esse livro pôde ser visto ao lado de um mendigo que ficou notório numa matéria de um jornal local por ter formação acadêmica elevada mas que, por ironia do destino, foi morar numa casa de papelão, embaixo de um viaduto. Esse viaduto foi inaugurado em agosto de 1986 pela gestão do prefeito Mendes Mota e liga a avenida Hilário Viera Campos com a rua Doutor Knust. Gerald Knust foi um renomado botânico que em 1956 liderou um projeto de arborização na cidade, além de ter criado o Jardim Botânico que leva seu nome. Em 2010 foram encontrados os corpos de três moradores de rua assassinados dentro das dependências do Jardim Botânico, crime este que, meses depois, foi descoberto ter sido cometido por 3 policiais militares de plantão. A filha de um desses policiais sofreu bullying na escola quando a notícia do envolvimento de seu pai no crime saiu na mídia. A escola dela tem um dos melhores índices de aprovação em concursos e vestibulares da cidade. O almoxarifado da Secretaria de Educação que divulga esses índices foi furtado na semana passada, e nenhuma câmera de segurança detectou o furto de dois projetores, três notebooks, sete Hds externos e quatro tablets. Os notebooks estavam ali por quase um ano à espera de manutenção pois a empresa responsável contratada pra isso havia sido descoberta em falcatruas e tinha sido considerada suspeita de concorrer a novas licitações. Um dos sócios dessa empresa possui um campo de golfe num bairro da periferia da cidade. Por doze vezes em menos de 3 anos esse campo de golfe sofreu tentativa de invasão por meio de movimentos dos sem-terra. Um vereador ligado a esses movimentos foi considerado, na administração passada, o “mais ausente”, com somente 45% de presença nas sessões da Câmara. Em setembro, um dos assessores desse vereador foi flagrado enviando os convites da festa do seu casamento pelo serviço postal da Câmara. A noiva desse assessor tem um antigo amante, um professor de matemática de uma cidade da região metropolitana. Em 2006 os alunos do curso de Matemática foram barrados no laboratório de informática no campus de Humanas, levando a um protesto que resultou em pancadaria, vandalismo e algumas apreensões. Um dos professores agredidos no protesto foi atendido no hospital Osmar Serrano pelo médico Júlio Rizzo. A filha do médico Júlio ganhou um concurso de calouros em sua escola cantando uma marchinha de carnaval que logo viralizou na internet. O zelador da escola dela possui uma extensa coleção de uma revista masculina famosa, mas o volume já está tão grande que já ocupa um dos quartos de sua casa. O maior patrocinador dessa revista é uma conhecida marca de barbeadores que, devido a crise, demitiu mais de 1500 funcionários do ano passado pra cá. Um desses funcionários demitidos é o pai de Solange, aquela que ama Maurício, mas não tem coragem de tentar.
domingo, 26 de junho de 2016
Onze meses
Minha namorada Margot tem uma ex namorada que hoje é gerente da loja onde minha ex namorada trabalha. Coincidência ou não, isso está nos afetando. A ex da minha namorada, Clarisse, faz todo possível pra encher o saco da minha ex, que acaba me ligando, chateando Margot. O objetivo de Clarisse é claro: ter Margot de volta.
Fevereiro. Meu plano é usar o Saymon, um ficante de minha prima Josy que se tornou meu amigo. O cara é um falastrão, metido a garanhão, e eu o sondei pra saber se ele me ajudava com Clarisse. Claro que daria uma grana a ele, nada muito caro, nem elaborado. Era só ele dar em cima da Clarisse, bem chato mesmo. Houve um tempo que ela curtia caras, e é nisso que eu aposto. Ele chega dizendo que lembra dela com algum cara, e que sempre foi muito afim dela. Plano perfeito.
Março. Margot saiu para o trabalho mais cedo. Eu fiquei, conspirando com Saymon pelo celular, o primeiro dia do plano contra Clarisse. Cheguei a pensar em avisar a minha ex, mas ela não ia concordar, afinal ela é funcionária da Clarisse. Descobri o horário do almoço do inimigo, avisei ao Saymon, e fui trabalhar. Eu queria ser uma abelha pra ver tudo aquilo acontecer! O constrangimento de Clarisse. Quero ver ela nem ter tempo pra pensar em Margot.
Na hora do almoço no meu trabalho eu ligo pro Saymon. Ele me fala que o plano deu parcialmente certo. Como assim? Ele me conta que Clarisse já o conhecia. E ele realmente lembrou dela. Eles foram parceiros em um curso pré-vestibular anos atrás. E eu com isso? Só quero ela longe da minha namorada. A parte boa é que ele a convidou pra um barzinho e ela topou. Vamos ver.
Abril. Josy pegou no pé de Saymon, quer namorar, e ficou desconfiada das constantes saídas dele. Pior que isso, ela jura que eu tenho algo a ver com isso. E eu tenho mesmo. Não poderia estar mais feliz. Saymon e Clarisse estão se vendo quase todos os dias. Barzinhos, happy hour no Centro, tudo bancado pelo papai aqui. A Margot está tranquila, distante disso. Meu plano está dando certo. Só tenho que achar o fim pra essa história. Meu dinheiro não pode ficar bancando tudo isso por tempo indeterminado.
Maio. Margot pediu um tempo no namoro, logo no dia que a gente ia fazer 2 anos juntos. Eu não sei o que pode estar acontecendo. Estávamos bem, a Clarisse havia sumido, minha ex também, era só eu e ela, e me acontece isso. O Saymon me confirma que Clarisse já está de olho em outra mulher. A Josy me conta que ela e Saymon estão muito bem, mas sei que ele vai trair sem pensar. Margot não me atende em determinados horários, evita chegar em casa cedo, os finais de semana agora são exclusivos para "dormir na casa da mamãe". Eu estou atônito!
Junho. Esse mundo está de ponta cabeça! Eu posso ser o cara mais atrasado do mundo, mas não entendo esse povo. Como pode? Margot e Marília estavam tendo um caso, e eu não percebi. Estive por tanto tempo achando que Saymon havia me livrado de Clarisse quando na verdade meu maior inimigo era a minha ex namorada. Como fui tão cego? Margot procurou Marília por ciúmes de mim, e acabaram se conhecendo melhor, e melhor ainda. Melhor até demais, pro meu gosto. Agora Margot busca Marília no trabalho, e eu sou motivo de piada de Clarisse que, de alguma forma, ficou sabendo do meu plano. Uma tragédia.
Julho. Margot quer voltar. Descobriu que "aquilo" não era o que ela queria pra sua vida. Dispensou Marília, que espalhou pra comunidade gay diversas fofocas maldosas. Daí ela viu Marília ficar com uma mulher "nojenta", e foi aquilo que a fez pensar na "cagada" que ela fez comigo. Então estava ali, pedindo perdão, querendo saber se a gente ainda tinha alguma chance. Eu tinha a faca e o queijo na mão. Podia humilhar, gritar, deixar toda a humilhação e ressentimento sair como um tigre e ataca-la. Mas aqueles olhos...
Dezembro. Eu e Margot esperamos uma menina. Quinto mês. O nome será Andrea.
Cheers!
Fevereiro. Meu plano é usar o Saymon, um ficante de minha prima Josy que se tornou meu amigo. O cara é um falastrão, metido a garanhão, e eu o sondei pra saber se ele me ajudava com Clarisse. Claro que daria uma grana a ele, nada muito caro, nem elaborado. Era só ele dar em cima da Clarisse, bem chato mesmo. Houve um tempo que ela curtia caras, e é nisso que eu aposto. Ele chega dizendo que lembra dela com algum cara, e que sempre foi muito afim dela. Plano perfeito.
Março. Margot saiu para o trabalho mais cedo. Eu fiquei, conspirando com Saymon pelo celular, o primeiro dia do plano contra Clarisse. Cheguei a pensar em avisar a minha ex, mas ela não ia concordar, afinal ela é funcionária da Clarisse. Descobri o horário do almoço do inimigo, avisei ao Saymon, e fui trabalhar. Eu queria ser uma abelha pra ver tudo aquilo acontecer! O constrangimento de Clarisse. Quero ver ela nem ter tempo pra pensar em Margot.
Na hora do almoço no meu trabalho eu ligo pro Saymon. Ele me fala que o plano deu parcialmente certo. Como assim? Ele me conta que Clarisse já o conhecia. E ele realmente lembrou dela. Eles foram parceiros em um curso pré-vestibular anos atrás. E eu com isso? Só quero ela longe da minha namorada. A parte boa é que ele a convidou pra um barzinho e ela topou. Vamos ver.
Abril. Josy pegou no pé de Saymon, quer namorar, e ficou desconfiada das constantes saídas dele. Pior que isso, ela jura que eu tenho algo a ver com isso. E eu tenho mesmo. Não poderia estar mais feliz. Saymon e Clarisse estão se vendo quase todos os dias. Barzinhos, happy hour no Centro, tudo bancado pelo papai aqui. A Margot está tranquila, distante disso. Meu plano está dando certo. Só tenho que achar o fim pra essa história. Meu dinheiro não pode ficar bancando tudo isso por tempo indeterminado.
Maio. Margot pediu um tempo no namoro, logo no dia que a gente ia fazer 2 anos juntos. Eu não sei o que pode estar acontecendo. Estávamos bem, a Clarisse havia sumido, minha ex também, era só eu e ela, e me acontece isso. O Saymon me confirma que Clarisse já está de olho em outra mulher. A Josy me conta que ela e Saymon estão muito bem, mas sei que ele vai trair sem pensar. Margot não me atende em determinados horários, evita chegar em casa cedo, os finais de semana agora são exclusivos para "dormir na casa da mamãe". Eu estou atônito!
Junho. Esse mundo está de ponta cabeça! Eu posso ser o cara mais atrasado do mundo, mas não entendo esse povo. Como pode? Margot e Marília estavam tendo um caso, e eu não percebi. Estive por tanto tempo achando que Saymon havia me livrado de Clarisse quando na verdade meu maior inimigo era a minha ex namorada. Como fui tão cego? Margot procurou Marília por ciúmes de mim, e acabaram se conhecendo melhor, e melhor ainda. Melhor até demais, pro meu gosto. Agora Margot busca Marília no trabalho, e eu sou motivo de piada de Clarisse que, de alguma forma, ficou sabendo do meu plano. Uma tragédia.
Julho. Margot quer voltar. Descobriu que "aquilo" não era o que ela queria pra sua vida. Dispensou Marília, que espalhou pra comunidade gay diversas fofocas maldosas. Daí ela viu Marília ficar com uma mulher "nojenta", e foi aquilo que a fez pensar na "cagada" que ela fez comigo. Então estava ali, pedindo perdão, querendo saber se a gente ainda tinha alguma chance. Eu tinha a faca e o queijo na mão. Podia humilhar, gritar, deixar toda a humilhação e ressentimento sair como um tigre e ataca-la. Mas aqueles olhos...
Dezembro. Eu e Margot esperamos uma menina. Quinto mês. O nome será Andrea.
Cheers!
quarta-feira, 15 de junho de 2016
O encontro no parque
Aquele encontro marcado para meio dia, um trânsito dos diabos, e o chocolate derretia dentro da caixa devido ao calor. As buzinas soavam e lá ao longe dava pra distinguir o apito do agente de trânsito. Aqueles vendedores no meio dos carros, adesivos e mais adesivos, com mensagens bregas, o ócio involuntário dentro do carro. Esqueceu até a pressa.
Uma leve dor de cabeça, na têmpora esquerda. Arruma o terço pendurado no retrovisor, dá uma olhada no carro ao lado, pessoas igualmente irritadas. Um casal e uma criança. Um carro popular da cor verde escuro, com um amassado na lateral. Provavelmente iam passear, ele pensa. Aquela família queria sossego, mas estava ali, pagando o preço que uma grande cidade pede.
Pensou em sua namorada. Pressa! Esse sinal que não fica verde, pensou. Os bombons estão derretendo, e ele ainda não havia comprado o urso de pelúcia com a frase personalizada que ele havia encomendado no shopping. Angústia. Ela deve estar chegando lá, e cada minuto que passa ele imagina o rosto de ira dela. Diabo de cidade, engarrafamento em pleno sábado!
Sinal verde!
Os carros iam como se engatinhando, afunilando da avenida até o acesso ao shopping. A hora já havia passado. Meio dia e quarenta. Ele vai morrer se não chegar em vinte minutos. Está com aquela esperança tola por achar que vai entrar com o carro no shopping, arrumar uma vaga, descer do carro, seguir até a loja, o maldito urso já vai estar na prateleira e embrulhado segundo suas especificações, ele vai pagar pelo urso, sair da loja, entrar no carro, sair do shopping, dirigir por 6 quilômetros, estacionar o carro no parque, encontrar a namorada a tempo de "arrumar a surpresa" e, finalmente, dar os presentes logo que é pra ela não reclamar.
Uma hora e vinte e oito. Seu namoro acabou! Ele estava a um pouco mais de 3 quilômetros do parque, e o calor já havia feito ele suar a camisa branca inteira. Ele balança levemente a caixa de bombons, um barulho seco. O chocolate agora deve ser uma barra só, pensa ele. Mesmo assim ele dirige com cuidado, sem acelerar muito. Desejava ter saído mais cedo, mas o cachorro sujou o pátio de sua casa com tanto lixo, ele teve que limpar. Tinha planos de economizar no dinheiro do motel e levar a namorada pra sua casa. Prático.
Ele chega ao parque. Dá uma última verificada na caixa de bombons, arruma rapidamente o maldito urso, o cartão com sua mensagem de amor. Sai do carro, tranca o carro, liga e desliga e liga novamente o alarme, caminha sorrateiro e atento procurando aquela mulher de cabelos negros. Ele não sabe como ela está vestida. Muitas pessoas no parque naquele dia. Ele procura nos lugares mais vazios, ela pode ter ido pra lá, afim de privacidade. Nada. Procura embaixo das árvores, onde já estão outros casais. Nada. Na parte mais afastada após o laguinho, onde ficam os fumantes. Nada. Aquela angústia. Ela se foi. Tudo acabou! Ele falhou! Rodou e rodou o parque. Tristeza. Abatimento. O urso sorria dentro daquele embrulho transparente com corações. Ele vai até a beira do lago, respira fundo e liga pra ela.
- Me perdoa amor, cheguei só agora por causa do trânsito! O que eu posso fazer pra compensar esse atraso gigantesco? Me perdoa, meu amor? - diz ele, desesperado.
- Amor, estou no ônibus, não posso falar, posso ser assaltada. Estou indo ao parque ainda. Quem se atrasou fui eu! Me desculpa. Passei pelo mesmo engarrafamento que você. Me espera, tá? Te amo!
Ele fica atônito, e seus músculos relaxam. Põe o celular no bolso, dá uma olhada no urso, e sorri. Ele senta próximo do laguinho. Em sua frente está, feliz, a família de três pessoas do carro popular verde. Ele ri. Fica em paz.
Cheers!
Uma leve dor de cabeça, na têmpora esquerda. Arruma o terço pendurado no retrovisor, dá uma olhada no carro ao lado, pessoas igualmente irritadas. Um casal e uma criança. Um carro popular da cor verde escuro, com um amassado na lateral. Provavelmente iam passear, ele pensa. Aquela família queria sossego, mas estava ali, pagando o preço que uma grande cidade pede.
Pensou em sua namorada. Pressa! Esse sinal que não fica verde, pensou. Os bombons estão derretendo, e ele ainda não havia comprado o urso de pelúcia com a frase personalizada que ele havia encomendado no shopping. Angústia. Ela deve estar chegando lá, e cada minuto que passa ele imagina o rosto de ira dela. Diabo de cidade, engarrafamento em pleno sábado!
Sinal verde!
Os carros iam como se engatinhando, afunilando da avenida até o acesso ao shopping. A hora já havia passado. Meio dia e quarenta. Ele vai morrer se não chegar em vinte minutos. Está com aquela esperança tola por achar que vai entrar com o carro no shopping, arrumar uma vaga, descer do carro, seguir até a loja, o maldito urso já vai estar na prateleira e embrulhado segundo suas especificações, ele vai pagar pelo urso, sair da loja, entrar no carro, sair do shopping, dirigir por 6 quilômetros, estacionar o carro no parque, encontrar a namorada a tempo de "arrumar a surpresa" e, finalmente, dar os presentes logo que é pra ela não reclamar.
Uma hora e vinte e oito. Seu namoro acabou! Ele estava a um pouco mais de 3 quilômetros do parque, e o calor já havia feito ele suar a camisa branca inteira. Ele balança levemente a caixa de bombons, um barulho seco. O chocolate agora deve ser uma barra só, pensa ele. Mesmo assim ele dirige com cuidado, sem acelerar muito. Desejava ter saído mais cedo, mas o cachorro sujou o pátio de sua casa com tanto lixo, ele teve que limpar. Tinha planos de economizar no dinheiro do motel e levar a namorada pra sua casa. Prático.
Ele chega ao parque. Dá uma última verificada na caixa de bombons, arruma rapidamente o maldito urso, o cartão com sua mensagem de amor. Sai do carro, tranca o carro, liga e desliga e liga novamente o alarme, caminha sorrateiro e atento procurando aquela mulher de cabelos negros. Ele não sabe como ela está vestida. Muitas pessoas no parque naquele dia. Ele procura nos lugares mais vazios, ela pode ter ido pra lá, afim de privacidade. Nada. Procura embaixo das árvores, onde já estão outros casais. Nada. Na parte mais afastada após o laguinho, onde ficam os fumantes. Nada. Aquela angústia. Ela se foi. Tudo acabou! Ele falhou! Rodou e rodou o parque. Tristeza. Abatimento. O urso sorria dentro daquele embrulho transparente com corações. Ele vai até a beira do lago, respira fundo e liga pra ela.
- Me perdoa amor, cheguei só agora por causa do trânsito! O que eu posso fazer pra compensar esse atraso gigantesco? Me perdoa, meu amor? - diz ele, desesperado.
- Amor, estou no ônibus, não posso falar, posso ser assaltada. Estou indo ao parque ainda. Quem se atrasou fui eu! Me desculpa. Passei pelo mesmo engarrafamento que você. Me espera, tá? Te amo!
Ele fica atônito, e seus músculos relaxam. Põe o celular no bolso, dá uma olhada no urso, e sorri. Ele senta próximo do laguinho. Em sua frente está, feliz, a família de três pessoas do carro popular verde. Ele ri. Fica em paz.
Cheers!
De Loé-Yoru
Ghan amava Loé, e um dia Seron matou Ghan e fez de Loé uma escrava. Um mercador chamado Faroé passava pelas terras de Seron e encontrou Loé e se apaixonou por sua beleza. Faroé vendia para o líder da tribo, e resolveu pagar a ele pela liberdade de Loé.
O líder ordenou a liberdade de Loé, mas Seron não obedeceu, e a acorrentou no fundo de uma caverna, com somente um vaso com grãos e um pote com água, despiu as roupas dela e as jogou num rio longe dali. Seron foi morto pelo líder, sem dizer onde havia acorrentado Loé. Faroé então passou a procurar por Loé por dias, até achar suas roupas no rio.
Achando que Loé havia morrido, Faroé desistiu das buscas e foi embora daquelas terras. No fundo da caverna, Loé já perdia as forças, e já havia desistido de gritar por socorro. Ela lembrava de Ghan, e de seu amor por ele, e de sua tribo. Sua tristeza foi silenciando cada vez mais seu coração, e sua esperança foi morrendo com ela.
Então, sem alimento e água, prestes a dar seu último suspiro, Loé viu uma luz crescente vir do fundo da caverna. Braços de luz levantaram sua cabeça, e ela sentiu um sopro de vida que a reanimou. A corrente se partiu com um estalo, e logo ela se via de pé.
Loé então perguntou - quem és? - mas os braços recolheram e sumiram, junto com a luz. Ela tremeu com o súbito frio que sentiu, e logo começou a escalar a caverna. Sua força voltara como nos dias mais felizes, e seu cabelo não estava sujo. Ela olhou para a saída da caverna e sorriu. A luz da lua banhou seu corpo nu.
Um ancião que colhia cogumelos encontrou Loé num caminho à beira de um morro, e a acolheu. Loé não falava nada, só sorria, e o ancião, após muito tentar saber sobre ela, deu-lhe um nome de Yoru, que era o nome de sua filha falecida. Alguns dias se passaram e Loé conviveu com o ancião, sorridente, ajudando na casa, como uma boa filha.
Mas um dia Loé parou de sorrir, e o ancião, que voltava da mata com uma pequena lebre para o jantar, viu pela primeira vez aquela bela mulher falar.
- Obrigado por tudo que fizeste a mim, ancião! Fui muito bem tratada enquanto estive com você aqui, e em honra de sua confiança e compaixão, adotarei o nome que me deste! Mas que infelicidade a minha não saber do vosso nome!
- Meu nome é Er-Danzu, o mais velho dos meus irmãos. E você não precisa me agradecer, eu vi você num sonho! E pouco antes de encontrá-la, uma mulher me apontou onde você estava, mas nada falou! Quando vi que você também não falava, segui meu sonho! Agora eu tenho Yoru de volta! - alegrou-se o ancião.
- Que mulher lhe apontou onde eu estava? - questionou Yoru.
- Uma mulher baixa, escura, de olhos estreitos, com uma vasta cabeleira até os joelhos, nua e envolta de limo, de onde brotavam pequenas flores, e alguns cogumelos, que eu procurava para fazer o chá que ia te curar, como no sonho. Nunca vi cogumelos como aqueles aqui nessas matas, mas aquele era sim o cogumelo que eu procurava. Para o chá, como no sonho. - disse o ancião.
Assim, com esse mistério a descobrir, Yoru despediu-se do ancião.
- Que os Imortais te protejam e te recebam nos Douros, Er-Danzu!
Mas o ancião lhe deu mais um mistério.
- Yoru, eu sei que você vai embora. Eu vi no sonho! Mas devo te dizer que seu coração está dividido. Seu amor por seu marido, ou vingar-se do homem que matou seu marido e te fez escrava. Assim como vi no sonho, te direi, escolha bem seu caminho. Muitos perigos estão lá fora para você. Descer ou subir, queimar ou mergulhar, amar ou vingar. Eu a quero bem, minha Yoru. Mas sei que vai ser tudo como no sonho. - falou o ancião, triste.
Assim Yoru foi embora da casa do ancião. Seu coração ainda estava relutante de qual caminho seguir. Voltar pra sua tribo, tão distante, ou vagar pelas terras ermas. Muitos planos e poucas certezas.
Assim começou a grande tragédia de Loé-Yoru, que viria se tornar a lenda mais famosa a se contar para assustar as crianças vários séculos depois. A história da mulher que foi dos Pósuos aos Douros, inspirando gerações de aventureiros de Solari.
O líder ordenou a liberdade de Loé, mas Seron não obedeceu, e a acorrentou no fundo de uma caverna, com somente um vaso com grãos e um pote com água, despiu as roupas dela e as jogou num rio longe dali. Seron foi morto pelo líder, sem dizer onde havia acorrentado Loé. Faroé então passou a procurar por Loé por dias, até achar suas roupas no rio.
Achando que Loé havia morrido, Faroé desistiu das buscas e foi embora daquelas terras. No fundo da caverna, Loé já perdia as forças, e já havia desistido de gritar por socorro. Ela lembrava de Ghan, e de seu amor por ele, e de sua tribo. Sua tristeza foi silenciando cada vez mais seu coração, e sua esperança foi morrendo com ela.
Então, sem alimento e água, prestes a dar seu último suspiro, Loé viu uma luz crescente vir do fundo da caverna. Braços de luz levantaram sua cabeça, e ela sentiu um sopro de vida que a reanimou. A corrente se partiu com um estalo, e logo ela se via de pé.
Loé então perguntou - quem és? - mas os braços recolheram e sumiram, junto com a luz. Ela tremeu com o súbito frio que sentiu, e logo começou a escalar a caverna. Sua força voltara como nos dias mais felizes, e seu cabelo não estava sujo. Ela olhou para a saída da caverna e sorriu. A luz da lua banhou seu corpo nu.
Um ancião que colhia cogumelos encontrou Loé num caminho à beira de um morro, e a acolheu. Loé não falava nada, só sorria, e o ancião, após muito tentar saber sobre ela, deu-lhe um nome de Yoru, que era o nome de sua filha falecida. Alguns dias se passaram e Loé conviveu com o ancião, sorridente, ajudando na casa, como uma boa filha.
Mas um dia Loé parou de sorrir, e o ancião, que voltava da mata com uma pequena lebre para o jantar, viu pela primeira vez aquela bela mulher falar.
- Obrigado por tudo que fizeste a mim, ancião! Fui muito bem tratada enquanto estive com você aqui, e em honra de sua confiança e compaixão, adotarei o nome que me deste! Mas que infelicidade a minha não saber do vosso nome!
- Meu nome é Er-Danzu, o mais velho dos meus irmãos. E você não precisa me agradecer, eu vi você num sonho! E pouco antes de encontrá-la, uma mulher me apontou onde você estava, mas nada falou! Quando vi que você também não falava, segui meu sonho! Agora eu tenho Yoru de volta! - alegrou-se o ancião.
- Que mulher lhe apontou onde eu estava? - questionou Yoru.
- Uma mulher baixa, escura, de olhos estreitos, com uma vasta cabeleira até os joelhos, nua e envolta de limo, de onde brotavam pequenas flores, e alguns cogumelos, que eu procurava para fazer o chá que ia te curar, como no sonho. Nunca vi cogumelos como aqueles aqui nessas matas, mas aquele era sim o cogumelo que eu procurava. Para o chá, como no sonho. - disse o ancião.
Assim, com esse mistério a descobrir, Yoru despediu-se do ancião.
- Que os Imortais te protejam e te recebam nos Douros, Er-Danzu!
Mas o ancião lhe deu mais um mistério.
- Yoru, eu sei que você vai embora. Eu vi no sonho! Mas devo te dizer que seu coração está dividido. Seu amor por seu marido, ou vingar-se do homem que matou seu marido e te fez escrava. Assim como vi no sonho, te direi, escolha bem seu caminho. Muitos perigos estão lá fora para você. Descer ou subir, queimar ou mergulhar, amar ou vingar. Eu a quero bem, minha Yoru. Mas sei que vai ser tudo como no sonho. - falou o ancião, triste.
Assim Yoru foi embora da casa do ancião. Seu coração ainda estava relutante de qual caminho seguir. Voltar pra sua tribo, tão distante, ou vagar pelas terras ermas. Muitos planos e poucas certezas.
Assim começou a grande tragédia de Loé-Yoru, que viria se tornar a lenda mais famosa a se contar para assustar as crianças vários séculos depois. A história da mulher que foi dos Pósuos aos Douros, inspirando gerações de aventureiros de Solari.
terça-feira, 14 de junho de 2016
De G'jia e Annon
G'jia estava completando seu primeiro milênio em Tardessa e seu pai, Oong'dulu já pedia um neto. Após tanto tempo sua filha não havia se interessado por nenhum tardessiano, e seus longos vinte e oito mil anos assustavam, pois estava velho e cansado daquele mundo.
Um dia, diante as praias de Oulata, em Rúnu, G'jia passeava com seu secto real quando uma delas encontrou uma rocha de um amarelo brilhante. G'jia recebeu a rocha em suas mãos e logo uma euforia correu seu corpo, e suas pernas ficaram moles, seus lábios ficaram secos e sua pupila se dilatou. Ela sorriu. Seu secto achou que era algo ruim, e tentou tirar a rocha das mãos da princesa, mas ela se recusou, e correu para dentro do mar.
As águas do mar pareciam línguas de fogo, que não queimavam nem feriam, e G'jia percebeu que aquela sensação era muito boa, carnal, e vinha da rocha brilhante. Seu secto por vezes tentou dissuadir a princesa a sair do mar, mas ela estava num transe consciente, experimentando sensações que ela nunca havia sentido. O vento em seu cabelo lhe causava um furor, e seu corpo tremia. A espuma das ondas lhe faziam rir.
Então, como se estivesse saindo de um sonho, ela quietou e caminhou para fora do mar. O secto, alarmado, a seguiu, de longe, como ela logo ordenou. G'jia caminhou muitas milhas, e seu secto ainda preocupado, já havia mandado emissários avisar ao rei e aos guardas reais. Ela caminhou até uma encosta onde havia uma grande rocha, semelhante a uma cadeira. Subiu sem esforços e ali ela depositou a rocha, assentada na rocha.
Um grande ruído de trovão e uma língua de fogo e água subiram, e G'jia se viu envolta numa nuvem de vapor, mas sua pele não queimava nem feria. O secto e os guardas reais lá ao longe se assustaram, mas não conseguiam se aproximar por causa do grande calor. G'jia levantou-se e abriu os braços como se fosse abraçar alguém. Então, como um raio que partiu o céu, Annon'bi'emac surgiu em sua frente, com seu cabelo dourado radiante. Suas roupas eram azuis com desenhos de ondas, e calçava umas botas cheias de conchas. G'jia o abraçou, falou algo em seu ouvido, e então ele falou com ela.
G'jia aceitou ser Rainha, e logo sua vida se alongou muito mais que a de seu pai. Oong'dulu retirou-se do trono, e em menos de duzentos anos seu neto, Ágolos, nasceu. Pouco mais que cento e oitenta anos depois, uma neta, Hésife, nasceu. O velho rei se alegrou, e muitas celebrações aconteceram por séculos. O reino estava alegre, governado por um Deus e por uma Rainha.
Oong'dulu morreu com trinta e quatro mil anos, e ao redor de seu túmulo muitas árvores nasceram, dando origem à Floresta de Détilos, conta a lenda. Ágolos assumiu o trono do reino com sua irmã Hésife quando seus pais, que nunca mais envelheceram, ascenderam e foram para a morada dos Mentarnaeu.
Esta é a origem, segundo o povo branti, dos homens que povoaram Solari, tendo em seu maior exemplo Martim, o Senhor dos Homens, Pai dos Homens, Orador dos Homens, Defensor dos Homens Menores.
Um dia, diante as praias de Oulata, em Rúnu, G'jia passeava com seu secto real quando uma delas encontrou uma rocha de um amarelo brilhante. G'jia recebeu a rocha em suas mãos e logo uma euforia correu seu corpo, e suas pernas ficaram moles, seus lábios ficaram secos e sua pupila se dilatou. Ela sorriu. Seu secto achou que era algo ruim, e tentou tirar a rocha das mãos da princesa, mas ela se recusou, e correu para dentro do mar.
As águas do mar pareciam línguas de fogo, que não queimavam nem feriam, e G'jia percebeu que aquela sensação era muito boa, carnal, e vinha da rocha brilhante. Seu secto por vezes tentou dissuadir a princesa a sair do mar, mas ela estava num transe consciente, experimentando sensações que ela nunca havia sentido. O vento em seu cabelo lhe causava um furor, e seu corpo tremia. A espuma das ondas lhe faziam rir.
Então, como se estivesse saindo de um sonho, ela quietou e caminhou para fora do mar. O secto, alarmado, a seguiu, de longe, como ela logo ordenou. G'jia caminhou muitas milhas, e seu secto ainda preocupado, já havia mandado emissários avisar ao rei e aos guardas reais. Ela caminhou até uma encosta onde havia uma grande rocha, semelhante a uma cadeira. Subiu sem esforços e ali ela depositou a rocha, assentada na rocha.
Um grande ruído de trovão e uma língua de fogo e água subiram, e G'jia se viu envolta numa nuvem de vapor, mas sua pele não queimava nem feria. O secto e os guardas reais lá ao longe se assustaram, mas não conseguiam se aproximar por causa do grande calor. G'jia levantou-se e abriu os braços como se fosse abraçar alguém. Então, como um raio que partiu o céu, Annon'bi'emac surgiu em sua frente, com seu cabelo dourado radiante. Suas roupas eram azuis com desenhos de ondas, e calçava umas botas cheias de conchas. G'jia o abraçou, falou algo em seu ouvido, e então ele falou com ela.
Eu estava preso neste mundoEntão G'jia mais uma vez o abraçou, e falou a ele.
Sozinho e apagando
Com o coração partido e esperando
Que você viesse!
Eu vim, amado!Annon'bi'emac olhou para cima, e um outro raio partiu o céu num estrondo. De lá desceu uma coroa dourada, com uma safira engastada na frente e dois topázios imperiais acima das orelhas. Ele segurou a coroa e coroou G'jia, que sorria. Ele então falou a ela.
Mas eu me sentia igualmente sozinha e apagando
Com o coração vazio e esperando
Que você viesse!
Nós estamos presos a esse mundoDe longe, chegando em seu cavalo, o rei Oong'dulu assistiu sua filha ser coroada, e se espantou com tamanha magia. Seu coração se encheu de ira, mas percebeu que Annon'bi'emac era um do povo dos Mentarnaeu, descendentes diretos dos deuses.
Que não é destinado para nós!
Aceita ser minha Rainha
E serei um Rei para vós!
G'jia aceitou ser Rainha, e logo sua vida se alongou muito mais que a de seu pai. Oong'dulu retirou-se do trono, e em menos de duzentos anos seu neto, Ágolos, nasceu. Pouco mais que cento e oitenta anos depois, uma neta, Hésife, nasceu. O velho rei se alegrou, e muitas celebrações aconteceram por séculos. O reino estava alegre, governado por um Deus e por uma Rainha.
Oong'dulu morreu com trinta e quatro mil anos, e ao redor de seu túmulo muitas árvores nasceram, dando origem à Floresta de Détilos, conta a lenda. Ágolos assumiu o trono do reino com sua irmã Hésife quando seus pais, que nunca mais envelheceram, ascenderam e foram para a morada dos Mentarnaeu.
Esta é a origem, segundo o povo branti, dos homens que povoaram Solari, tendo em seu maior exemplo Martim, o Senhor dos Homens, Pai dos Homens, Orador dos Homens, Defensor dos Homens Menores.
sábado, 11 de junho de 2016
É a vida!
Meu extremo mau gosto. As enrascadas que eu passo por causa do meu extremo mau gosto. Quantas vezes ficarei constrangido, ou até triste, por causa do meu extremo mau gosto. Se arrependimento matasse, eu estaria, nesse momento, numa UTI, ligado a aparelhos.
Aqueles olhares, aquelas pessoas cochichando enquanto eu passava, a vergonha que Denise teve ao me avisar que ali, naquele momento, eu era o centro das atenções, e das críticas. Eu era um pária que visitava um reino distante, o homem sem pudor no meio dos recatados. Aquela sensação na barriga, minhas pernas ficaram bambas. E o pior foi o rosto de Denise se contorcendo. Eu não era bem visto.
Tentei buscar a mão dela, mas ela evitou. Não me abandonou, mas evitou o contato físico. Era compreensível naquele momento, mas era justamente o que eu não queria: ficar sem o toque das mãos dela. Eu rapidamente encontrei dezenas de lugares onde fixar o olhar, como se fugindo dos olhares das pessoas, que agora quase cercavam o "casal estranho". Acho que vi duas ou três pessoas discretamente fotografando ou filmando com seus celulares aquela cena incrível e vergonhosa. Denise parecia muito abatida.
Lentamente caminhamos, ainda sem rumo, torpes pela extrema atenção que nos davam aquele povo. Eu tentei dizer algo, e antes que eu terminasse de balbuciar ela respondeu com um "aham", balançando a cabeça assertivamente. Eu percebi que Denise não conversaria comigo. Não ali. Então busquei com os olhos um lugar onde pudéssemos ficar sem aquelas pessoas nos olhando. Encontrei uma pastelaria. Fomos para lá.
Acho que o dono daquela pastelaria nunca havia vendido tantos pastéis em menos de 10 minutos. As pessoas nos acompanharam, parecíamos magnetos atraindo metal, e agora Denise estava realmente acuada. Eu pensei em reagir, gritar com aquelas pessoas, mas só a assustaria mais. Eu havia comprado um pastel pra mim, e outro pra ela, um refrigerante pra mim e um caldo de cana pra ela. Mas o pastel estava amargo com tantos olhares, tantos flashes. Então resolvi mudar tudo aquilo novamente.
Particularmente meu extremo mau gosto é fruto de anos de prática. Posso ser o último homem no mundo a ter tantas excentricidades, sou um raro espécime dos "bastardos", o evitável estranho. Mas Denise é uma bela mulher, com um belo sorriso e belas ideias. Temo o dia que eu a perder. Me encontraria, finalmente, no inferno de onde as pessoas acham que saí. E tudo deixaria de fazer sentido. Eu seria mesmo o estranho no ninho, finalmente.
Então, num belo dia, uma parada cardíaca me levou. E o mundo perdeu um pouco da sua estranheza. Estou numa cama de hospital a 6 anos, e escrevo isso com uma caneta especial em um tablet, pois tive um derrame em seguida, quando tentavam salvar minha vida. Não falo, minha paisagem é uma avenida em frente ao hospital, e, num dia longo, as fisioterapias me deixam cansado. A Denise me visitou umas sete vezes, mas já se vão quase 4 anos que ela não vem. Deve ter me esquecido. Ou tido uma parada cardíaca. É a vida!
Vou morrer sem ela. Finalmente.
Cheers!
Aqueles olhares, aquelas pessoas cochichando enquanto eu passava, a vergonha que Denise teve ao me avisar que ali, naquele momento, eu era o centro das atenções, e das críticas. Eu era um pária que visitava um reino distante, o homem sem pudor no meio dos recatados. Aquela sensação na barriga, minhas pernas ficaram bambas. E o pior foi o rosto de Denise se contorcendo. Eu não era bem visto.
Tentei buscar a mão dela, mas ela evitou. Não me abandonou, mas evitou o contato físico. Era compreensível naquele momento, mas era justamente o que eu não queria: ficar sem o toque das mãos dela. Eu rapidamente encontrei dezenas de lugares onde fixar o olhar, como se fugindo dos olhares das pessoas, que agora quase cercavam o "casal estranho". Acho que vi duas ou três pessoas discretamente fotografando ou filmando com seus celulares aquela cena incrível e vergonhosa. Denise parecia muito abatida.
Lentamente caminhamos, ainda sem rumo, torpes pela extrema atenção que nos davam aquele povo. Eu tentei dizer algo, e antes que eu terminasse de balbuciar ela respondeu com um "aham", balançando a cabeça assertivamente. Eu percebi que Denise não conversaria comigo. Não ali. Então busquei com os olhos um lugar onde pudéssemos ficar sem aquelas pessoas nos olhando. Encontrei uma pastelaria. Fomos para lá.
Acho que o dono daquela pastelaria nunca havia vendido tantos pastéis em menos de 10 minutos. As pessoas nos acompanharam, parecíamos magnetos atraindo metal, e agora Denise estava realmente acuada. Eu pensei em reagir, gritar com aquelas pessoas, mas só a assustaria mais. Eu havia comprado um pastel pra mim, e outro pra ela, um refrigerante pra mim e um caldo de cana pra ela. Mas o pastel estava amargo com tantos olhares, tantos flashes. Então resolvi mudar tudo aquilo novamente.
Particularmente meu extremo mau gosto é fruto de anos de prática. Posso ser o último homem no mundo a ter tantas excentricidades, sou um raro espécime dos "bastardos", o evitável estranho. Mas Denise é uma bela mulher, com um belo sorriso e belas ideias. Temo o dia que eu a perder. Me encontraria, finalmente, no inferno de onde as pessoas acham que saí. E tudo deixaria de fazer sentido. Eu seria mesmo o estranho no ninho, finalmente.
Então, num belo dia, uma parada cardíaca me levou. E o mundo perdeu um pouco da sua estranheza. Estou numa cama de hospital a 6 anos, e escrevo isso com uma caneta especial em um tablet, pois tive um derrame em seguida, quando tentavam salvar minha vida. Não falo, minha paisagem é uma avenida em frente ao hospital, e, num dia longo, as fisioterapias me deixam cansado. A Denise me visitou umas sete vezes, mas já se vão quase 4 anos que ela não vem. Deve ter me esquecido. Ou tido uma parada cardíaca. É a vida!
Vou morrer sem ela. Finalmente.
Cheers!
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Os mortos sofrem
Um copo de vinho pra cada. Um par de velas acesas. Música ambiente, volume baixo. Talheres e guardanapos. Uma faca suja de sangue. Carne nos pratos. Olhos nos pratos. Mãos nas mãos. Um inexplicável cheiro de lodo. Muito sangue, por todo o lugar. Um garfo enfiado na nuca dela, dois golpes de faca no pescoço dele. Um cartão decorado com anjos, manchado de sangue em cima da mesa, em frente ao copo de vinho dela. Algo escrito. Letra cursiva.
Não fui o marido que você merecia, nem o melhor provedor para as necessidades que você merecia. Não fui o melhor pai, nem o melhor ouvinte nos momentos de crise. Sou esse ser humano, cheio de defeitos. Defeitos que me fizeram perder você. E eu estive sozinho por tanto tempo.
Agora você me dá essa chance. Quer me ouvir. Se soubesse como foi bom ouvir sua voz no telefone, propondo esse jantar. Meu coração está feliz, e estou disposto a ouvir. Estou disposto a mudar. Por você, pelas crianças, pela nossa família.
Esse cartão eu deixo para você. Se está lendo até aqui é porque tudo nesse jantar ocorreu bem, e estamos bem. Aceite me ver mais vezes. Prometo me tornar o homem que você merece ter. Ainda amo você!
Provavelmente um jantar de reconciliação. O nome dele é Hugo, e esta é a casa dela. Os cães mortos ali fora são delas, então. A cozinha revirada, ali houve luta corporal. Eles não foram mortos à mesa. Foram postos aqui. O sangue por todo lado não é deles. Mais alguém morreu aqui, mas onde está o corpo. Alguém morreu e ninguém percebeu. "Enquanto os vivos celebram, os mortos sofrem". Uma ideia errada. Talvez. A única ideia que pode explicar essas mortes. Talvez. Mas, na mesinha ao lado do sofá, uma pista. Um porta retrato. Ela e um homem, branco, baixo e de terno, e ela de vestido azul. Quem será?
Cheers!
Não fui o marido que você merecia, nem o melhor provedor para as necessidades que você merecia. Não fui o melhor pai, nem o melhor ouvinte nos momentos de crise. Sou esse ser humano, cheio de defeitos. Defeitos que me fizeram perder você. E eu estive sozinho por tanto tempo.
Agora você me dá essa chance. Quer me ouvir. Se soubesse como foi bom ouvir sua voz no telefone, propondo esse jantar. Meu coração está feliz, e estou disposto a ouvir. Estou disposto a mudar. Por você, pelas crianças, pela nossa família.
Esse cartão eu deixo para você. Se está lendo até aqui é porque tudo nesse jantar ocorreu bem, e estamos bem. Aceite me ver mais vezes. Prometo me tornar o homem que você merece ter. Ainda amo você!
Hugo
Provavelmente um jantar de reconciliação. O nome dele é Hugo, e esta é a casa dela. Os cães mortos ali fora são delas, então. A cozinha revirada, ali houve luta corporal. Eles não foram mortos à mesa. Foram postos aqui. O sangue por todo lado não é deles. Mais alguém morreu aqui, mas onde está o corpo. Alguém morreu e ninguém percebeu. "Enquanto os vivos celebram, os mortos sofrem". Uma ideia errada. Talvez. A única ideia que pode explicar essas mortes. Talvez. Mas, na mesinha ao lado do sofá, uma pista. Um porta retrato. Ela e um homem, branco, baixo e de terno, e ela de vestido azul. Quem será?
Cheers!
segunda-feira, 11 de abril de 2016
A Paciente
A coruja está observando a águia. Na noite sem lua esses olhos são o mau agouro dos viajantes, e nem os animais se atrevem a sair de suas tocas, de seus ninhos. A águia está tranquila. Ela sabe que é observada. E em noites seguidas essas duas caçadoras se esquivam, evitando olhares mais soturnos. E os animais estão tensos, medrosos.
O lobo observa a ovelha. Em dias de chuva não há proteção, nunca se sabe o momento de um ataque. O lobo se aproxima da cerca, fareja, mas volta para a floresta. Ele está cansado. quer desistir. As ovelhas percebem seu desânimo, e se distanciam mais. O sol está nascendo no leste.
Cheers!
O lobo observa a ovelha. Em dias de chuva não há proteção, nunca se sabe o momento de um ataque. O lobo se aproxima da cerca, fareja, mas volta para a floresta. Ele está cansado. quer desistir. As ovelhas percebem seu desânimo, e se distanciam mais. O sol está nascendo no leste.
Cheers!
sábado, 9 de abril de 2016
"You must trust in me"
Encontraram o corpo da jovem no vigésimo sétimo dia após seu sequestro. Disseram que havia, ao lado do corpo, uma placa de carro roubado a um ano atrás, que continha a inscrição "BuG do milenio", gravada grosseiramente na parte de trás da placa. Na vítima só havia um corte no ombro.
Os investigadores logo associaram a inscrição a um outro assassinato de um rapaz, em Maio. Neste caso a placa de carro roubado continha uma inscrição com uma grafia diferente de duas maneiras: a letra era cursiva e o texto era "Bug do mileNio". Era uma pista, mas algo que o assassino havia deixado de propósito. Era de se desconfiar.
Realmente "Bug do Milênio" foi um problema da informática que causou preocupação mundial, com consequências reais, mas isso não nos levava a entender qual a mensagem que o assassino queria deixar. Uns teóricos achavam que aquilo era aleatório, mas meus amigos não compartilhavam dessa opinião.
Agora em Outubro surgiu mais um corpo. Uma jovem que trabalhava numa lanchonete. Um modus operandi diferente, mas a placa estava lá, agora com a inscrição "bug do milenio" gravada grosseiramente. O corpo estava semi mutilado nos cotovelos e nos joelhos, e todos os dedos das mãos e dos pés foram retirados, e não encontrados. Os investigadores já acham que é outro assassino querendo simular os "métodos" do primeiro. Provavelmente um amador.
Quase dois anos se passaram e nenhuma pista do assAssino de AliCe.
Cheers!
Os investigadores logo associaram a inscrição a um outro assassinato de um rapaz, em Maio. Neste caso a placa de carro roubado continha uma inscrição com uma grafia diferente de duas maneiras: a letra era cursiva e o texto era "Bug do mileNio". Era uma pista, mas algo que o assassino havia deixado de propósito. Era de se desconfiar.
Realmente "Bug do Milênio" foi um problema da informática que causou preocupação mundial, com consequências reais, mas isso não nos levava a entender qual a mensagem que o assassino queria deixar. Uns teóricos achavam que aquilo era aleatório, mas meus amigos não compartilhavam dessa opinião.
Agora em Outubro surgiu mais um corpo. Uma jovem que trabalhava numa lanchonete. Um modus operandi diferente, mas a placa estava lá, agora com a inscrição "bug do milenio" gravada grosseiramente. O corpo estava semi mutilado nos cotovelos e nos joelhos, e todos os dedos das mãos e dos pés foram retirados, e não encontrados. Os investigadores já acham que é outro assassino querendo simular os "métodos" do primeiro. Provavelmente um amador.
Quase dois anos se passaram e nenhuma pista do assAssino de AliCe.
Cheers!
sábado, 2 de abril de 2016
Rir da fatalidade
Foi divertido chegar naquele lugar úmido e abandonado e ver todos aqueles moleques dançando pelados ao redor de uma fogueira, como se fossem nativos entrando em conexão com a natureza, vocalizando cânticos e palavras ininteligíveis, levando as mãos ao alto como se evocassem deuses ancestrais. Foi realmente divertido ver aquela cena. Um bando de drogados sacaneados por alucinações de uma droga avassaladora. Marionetes infames.
Slash é o nome de uma nova droga. Promovia sensações das mais variadas, alucinógenas e psicodélicas, e a grande maioria das pessoas que experimentavam, se tornavam rapidamente submissos, melhor dizer viciados, a essas sensações. Ouvi relatos de pessoas que experimentavam, inclusive, dependendo da dosagem, a privação de algum sentido, algo que eu jamais ouvi falar por outras drogas. Pessoas que ficavam dias sob efeito da droga, com suas mentes ocupadas, completamente distantes da realidade ao seu redor. Era triste.
Essa droga era vendida nos mais diversos ambientes. Ricos e pobres, nem classe nem gênero, a droga estava dominando o mundo numa escalada jamais vista. O mundo, de repente, se viu tomado por zumbis viciados em Slash. Os governos não estavam preparados, e em poucas semanas após os primeiros registros do uso dessa droga, logo surgiram pesquisas mostrando a sua rápida ascensão, sua distribuição fácil e quase imperceptível. Slash é vendida em ampolas de poucos centímetros, um líquido transparente ou levemente amarelado. Cerca de 5ml da droga era o suficiente pra um dia inteiro de "barato". E o que dizer do preço? Você compra facilmente pelo mesmo preço de um fast food médio!
Mas o que incomoda mesmo os governos e orgãos de saúde pública é a facilidade de produzir o Slash. Obtido a partir de um processo químico cuja matéria prima são um tipo de cogumelo, uma raiz e uma casca de árvore, mesmo alguém com poucos recursos, mas com a matéria prima na quantidade certa, duas panelas, um coador, um fogão e um prato, pode produzir bastante droga, mesmo que numa pureza duvidosa. Já os grandes traficantes, que se viram "perdendo mercado", migraram rapidamente, e produzem drogas com maior pureza e, claro, as ampolas, que saem num ritmo industrial. A última grande apreensão de Slash se deu na Austrália: 220 litros da droga!
É por isso que eu ri quando fui buscar meu sobrinho, no meio do mato, sujo e dançando ao redor de uma fogueira. Ri da fatalidade. Eu ri do caos. Eu ri do sistema. Ele não é uma vítima. Ele só se perdeu da mãe num shopping, uma semana atrás, e só hoje eu descobri onde ele estava. Um garoto de 12 anos, que provavelmente nunca havia experimentado nenhuma droga. Um garoto de 12 anos, pelado, vocalizando como um animal pré-histórico, ao redor de uma fogueira. Eu preciso rir disso. Logo o efeito passa, e ele vai querer mais. Ele vai desejar se perder de sua mãe no shopping outras vezes. E eu vou rir todas as vezes que isso acontecer.
Cheers!
Slash é o nome de uma nova droga. Promovia sensações das mais variadas, alucinógenas e psicodélicas, e a grande maioria das pessoas que experimentavam, se tornavam rapidamente submissos, melhor dizer viciados, a essas sensações. Ouvi relatos de pessoas que experimentavam, inclusive, dependendo da dosagem, a privação de algum sentido, algo que eu jamais ouvi falar por outras drogas. Pessoas que ficavam dias sob efeito da droga, com suas mentes ocupadas, completamente distantes da realidade ao seu redor. Era triste.
Essa droga era vendida nos mais diversos ambientes. Ricos e pobres, nem classe nem gênero, a droga estava dominando o mundo numa escalada jamais vista. O mundo, de repente, se viu tomado por zumbis viciados em Slash. Os governos não estavam preparados, e em poucas semanas após os primeiros registros do uso dessa droga, logo surgiram pesquisas mostrando a sua rápida ascensão, sua distribuição fácil e quase imperceptível. Slash é vendida em ampolas de poucos centímetros, um líquido transparente ou levemente amarelado. Cerca de 5ml da droga era o suficiente pra um dia inteiro de "barato". E o que dizer do preço? Você compra facilmente pelo mesmo preço de um fast food médio!
Mas o que incomoda mesmo os governos e orgãos de saúde pública é a facilidade de produzir o Slash. Obtido a partir de um processo químico cuja matéria prima são um tipo de cogumelo, uma raiz e uma casca de árvore, mesmo alguém com poucos recursos, mas com a matéria prima na quantidade certa, duas panelas, um coador, um fogão e um prato, pode produzir bastante droga, mesmo que numa pureza duvidosa. Já os grandes traficantes, que se viram "perdendo mercado", migraram rapidamente, e produzem drogas com maior pureza e, claro, as ampolas, que saem num ritmo industrial. A última grande apreensão de Slash se deu na Austrália: 220 litros da droga!
É por isso que eu ri quando fui buscar meu sobrinho, no meio do mato, sujo e dançando ao redor de uma fogueira. Ri da fatalidade. Eu ri do caos. Eu ri do sistema. Ele não é uma vítima. Ele só se perdeu da mãe num shopping, uma semana atrás, e só hoje eu descobri onde ele estava. Um garoto de 12 anos, que provavelmente nunca havia experimentado nenhuma droga. Um garoto de 12 anos, pelado, vocalizando como um animal pré-histórico, ao redor de uma fogueira. Eu preciso rir disso. Logo o efeito passa, e ele vai querer mais. Ele vai desejar se perder de sua mãe no shopping outras vezes. E eu vou rir todas as vezes que isso acontecer.
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