sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Sábio no Exílio

O sábio passou seus primeiros anos de exílio numa comunidade pobre, junto a pessoas que lhe faziam dezenas de perguntas todos os dias. Ele experimentava, naquele lugar, a proximidade com a natureza, o privilégio de contemplação ociosa, a paz reconfortante. Ele não possuía pupilos, somente as muitas crianças que lhe acompanhavam durante suas longas caminhadas.

Um dia o governador lhe procurou. Um aparato muito grande garantia a segurança dele, e o sábio se desvencilhou de muitos constrangimentos a população propondo que essa reunião se desse em um lugar ermo. Ali ninguém poderia interromper a fala dos dois. O governador acatou a proposta, afim de consultar o sábio. E assim, por 3 dias, um perguntou e o outro respondeu.

Cheers!

terça-feira, 23 de maio de 2017

Rascunhando #1


Uma noite sem sono e as horas pareciam tão lentas, uma sensação ruim me tirou da cama, estou sonolento, mas alerta. Pela janela ouço o som dos carros passando na avenida movimentada lá embaixo, e o som dos gatos miando nos telhados dos comércios ao lado do edifício onde moro. Ligo a televisão por puro hábito, olhar pela janela se mostra mais interessante. Confiro as horas no relógio pendurado na parede, um daqueles itens que você vê lindo nas revistas de arquitetura, compra e depois se arrepende pelo preço tão alto por uma função tão banal. Já são 23:38 da madrugada, eu me estico em frente a janela e dou uma observada no que se passa. Tédio.

As ruas estão molhadas pela chuva que castigou a cidade durante a tarde toda, os carros passam e aquele chiado que os pneus produzem me faz lembrar de quando eu era mais novo e queria comprar um carro. Típico adolescente, querendo impressionar as pessoas erradas mas evitando as pessoas certas. Por pouco não guardo o dinheiro da faculdade. Hoje eu poderia ter um carro, mas sem diploma dificilmente teria um apartamento. Um sacrifício recompensado, penso eu. Os bares não me conheceram, as pilhas de livros eram meu travesseiro. Então observo um carro popular passando devagar, provavelmente velho e com defeitos. Penso se aquela pessoa dirigindo tem um diploma. Quem sabe?

domingo, 30 de abril de 2017

Computando Dados: Yor


Computando os dados. Yor estava sentada na calçada em frente a sua casa, vestindo aquele moletom velho e puído, um sorriso estranho no rosto que encarava quem passava. Ela esperava o entregador de jornal, ávida pelas notícias do plantão policial. Amava a tragédia e a imperfeição com que os crimes eram tão evidentemente elucidados pela polícia. Apesar disso ela tinha uma queda pelos bandidos, e muito frequente “torcia” para que algum criminoso em fuga não fosse capturado ou que um crime sem solução permanecesse sem solução. Ela guardava as matérias num fichário, a maioria com notas e até alguns desenhos, e as “mais interessantes” ficavam num arquivo de três gavetas, organizadas por data, jornal ou nome do criminoso. Ela nunca organizava por crime. Acreditava que crime é crime, tanto faz se é um sequestro ou um furto.

A mãe de Yor, Jezebel, acredita que sua filha será uma importante investigadora no futuro, e até apoia o hobby da filha. O pai de Yor é um contador de nome Zacarias. Nunca prestou atenção em como a filha gastava seu tempo livre, mas já estava até acostumado em ser o segundo a ler os jornais. Yor possui um irmão, Orven, quatro anos mais novo que ela, e seu principal ouvinte e companheiro.

Computando os dados. Yor estava na casa de sua amiga e vizinha Gir, falando de garotos, e folheando essas revistas adolescentes. Gir estava servindo de cupido, e havia convidado Leto, um rapaz da sua igreja, para sua casa. Yor havia pedido o encontro, que não poderia acontecer na sua casa por conta da pentelhice de Orven e, claro, porque não poderia ficar a sós com um rapaz em seu quarto. Tudo dependia dos pais de Gir chegarem no mesmo horário de sempre e não acabarem com o encontro. Yor estava sem calcinha e vestindo uma camisa de hóquei, e calculara cada segundo de seu encontro com Leto. As duas combinavam detalhes quando a campainha soou.

Um rapaz educado, de fala macia, com grandes olhos castanhos. Leto trouxe duas pizzas, provavelmente por não saber do encontro às escuras que Gir promoveu, e por achar que seria somente uma tarde de lanche e filme. Ficou um pouco desconfortável quando soube que os pais de Gir não estavam em casa, e mais ainda constrangido quando as duas o convidaram para subir para o quarto. Inventou uma pequena tosse e perguntou pelo banheiro. Lá dentro ele manda uma mensagem para um amigo: “ESTOU NUM QUARTO COM DUAS GAROTAS!! UMA DELAS FEZ QUESTÃO DE MOSTRAR QUE ESTÁ SEM CALCINHA!!! FODA NÃO TER TRAZIDO CAMISINHA!!! DEPOIS MANDO FOTOS”. A mensagem foi enviada e visualizada. Em segundos a resposta: “Para de bater punheta, porra! Quero foto nenhuma não!”.

Computando os dados. Yor está no shopping afim de comprar um edredom de presente para seu irmão. Os preços estão muito elevados. Na sua mente ela pensa “poderia roubar facilmente pela área de descarga de produtos”, mas daí ela lembra que em todo lugar existem câmeras de segurança. Isso a deixa aliviada porque ela se preocupa de não deixar esses pensamentos criminosos crescerem dentro dela. Mesmo assim ela tem uma sensação de que pensar assim é algo natural, e que ela não está sozinha. Então ela escolhe o edredom, leva até o caixa e efetua o pagamento, vendo ir embora boa parte de sua mesada. Nada mal, Orven merece.

Na festa do aniversário de Orven o bolo era no tema de um filme de ação onde homens falam com carros que se transformam em robôs. Gir e Leto vieram, e trouxeram presentes. Yor foi bem cerimonial com Leto e tratou de se isolar em seu quarto, em meio aos seus arquivos. Jezebel estava radiante num vestido amarelo e seu marido Zacarias era o pai mais desastrado da face da terra. O pobre pai havia quebrado a vidraça da janela pondo uma escada afim de colar os balões da festa, deixado o frango muito além do tempo no forno, deixando a casa com aquele odor de carne queimada e, sem querer, quebrado um dos presentes de Orven. Mesmo assim ele ria e contava piadas aleatórias para os convidados. No final da tarde todos foram embora e sobrara mais de dois terços do bolo, e muitos salgadinhos. Orven agradeceu.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Brainstorm #1

Solange  é  apaixonada  por  Maurício  desde  o  tempo  da  escola,  mas  nunca  teve  coragem  pra  tentar algo  com  o  rapaz.  Maurício  trabalha  como  técnico  de  informática  numa  loja  de  departamentos,  e completou  6  anos  lá  em  Outubro  passado.  A  loja  de  departamentos  se  chama  Incrível  e  está passando  por  uma  crise  financeira,  o  dono  já  está  pensando  em  fechar  algumas  filiais  no  estado. Todas  quartas  e  quintas  o  dono  da  Incrível  janta  no  restaurante  de  sua  ex  mulher,  sendo  essa  a maneira  que  ele  tem  de  estar  próximo  da  mãe  dos  seus  3  filhos.  Um  acidente  de  moto  vitimou  um desses  filhos  ano  passado,  e  hoje  ele  necessita  fazer  fisioterapia  para  restabelecer  os  movimentos das  pernas.  A  fisioterapeuta  dele  participa  de  um  grupo  de  oração  na  igreja  que  ela  frequenta  desde menina,  sempre  nas  segundas.  A  melhor  amiga  dela  está  estudando  Enfermagem  numa  conceituada universidade  da  cidade,  a  inspiração  parte  de  uma  história  da  família  onde  um  médico  salvou  a  vida de  sua  avó.  Em  1977  a  avó  dessa  menina  estava  em  um  cruzeiro,  e  ela  conheceu  as  Bahamas  com um  amigo  de  infância,  que  hoje  é  seu  marido.  Foi  nesse  mesmo  cruzeiro  que  João  foi  “concebido”, e  até  hoje  seus  pais  brincam  ao  dizer  que  ele  não  tem  país,  que  ele  é  internacional.  A  palavra “internacional”  é  citada  81  vezes  no  livro  “A  Crise  Humanitária  e  a  Revolução  dos  Imigrantes”,  do cientista  de  política  externa  Abdel  Sharaf.  Esse  livro  pôde  ser  visto  ao  lado  de  um  mendigo  que ficou  notório  numa  matéria  de  um  jornal  local  por  ter  formação  acadêmica  elevada  mas  que,  por ironia  do  destino,  foi  morar  numa  casa  de  papelão,  embaixo  de  um  viaduto.  Esse  viaduto  foi inaugurado  em  agosto  de  1986  pela  gestão  do  prefeito  Mendes  Mota  e  liga  a  avenida  Hilário  Viera Campos  com  a  rua  Doutor  Knust.  Gerald  Knust  foi  um  renomado  botânico  que  em  1956  liderou  um projeto  de  arborização  na  cidade,  além  de  ter  criado  o Jardim  Botânico  que  leva  seu nome.  Em  2010 foram  encontrados  os  corpos  de  três  moradores  de  rua  assassinados  dentro  das  dependências  do Jardim  Botânico,  crime  este  que,  meses  depois,  foi  descoberto  ter  sido  cometido  por  3  policiais militares  de  plantão.  A  filha  de  um  desses  policiais  sofreu  bullying  na  escola  quando  a  notícia  do envolvimento  de  seu  pai  no  crime  saiu  na  mídia.  A  escola  dela  tem  um  dos  melhores  índices  de aprovação  em  concursos  e  vestibulares  da  cidade.  O  almoxarifado  da  Secretaria  de  Educação  que divulga  esses  índices  foi  furtado  na  semana  passada,  e  nenhuma  câmera  de  segurança  detectou  o furto  de  dois  projetores,  três  notebooks,  sete  Hds  externos  e  quatro  tablets.  Os  notebooks  estavam ali  por  quase  um  ano  à  espera  de  manutenção  pois  a  empresa  responsável  contratada  pra  isso  havia sido  descoberta  em  falcatruas  e  tinha  sido  considerada  suspeita  de  concorrer  a  novas  licitações.  Um dos  sócios  dessa  empresa  possui  um  campo  de  golfe  num  bairro  da  periferia  da  cidade.  Por  doze vezes  em  menos  de  3 anos  esse  campo  de  golfe  sofreu  tentativa  de  invasão  por meio  de  movimentos dos  sem-terra.  Um  vereador  ligado  a  esses  movimentos  foi  considerado,  na  administração  passada, o  “mais  ausente”,  com  somente  45%  de  presença  nas  sessões  da  Câmara.  Em  setembro,  um  dos assessores  desse  vereador  foi  flagrado  enviando  os  convites  da  festa  do  seu  casamento  pelo  serviço postal  da  Câmara.  A  noiva  desse  assessor  tem  um  antigo  amante,  um  professor  de  matemática  de uma  cidade  da  região  metropolitana.  Em  2006  os  alunos  do  curso  de  Matemática  foram  barrados  no laboratório  de  informática no  campus  de  Humanas,  levando  a  um  protesto  que  resultou  em pancadaria,  vandalismo  e  algumas  apreensões.  Um  dos  professores  agredidos  no  protesto  foi atendido  no  hospital  Osmar  Serrano  pelo  médico  Júlio  Rizzo.  A  filha  do  médico  Júlio  ganhou  um concurso  de  calouros  em  sua  escola  cantando  uma  marchinha  de  carnaval  que  logo  viralizou  na internet.  O  zelador  da  escola  dela  possui  uma  extensa  coleção  de  uma  revista  masculina  famosa, mas  o  volume  já  está  tão  grande  que  já  ocupa  um  dos  quartos  de  sua  casa.  O  maior  patrocinador dessa  revista  é  uma  conhecida  marca  de  barbeadores  que,  devido  a  crise,  demitiu  mais  de  1500 funcionários  do  ano  passado  pra  cá.  Um  desses  funcionários  demitidos  é  o  pai  de  Solange,  aquela que  ama  Maurício, mas  não  tem  coragem  de  tentar.

domingo, 26 de junho de 2016

Onze meses

Minha namorada Margot tem uma ex namorada que hoje é gerente da loja onde minha ex namorada trabalha. Coincidência ou não, isso está nos afetando. A ex da minha namorada, Clarisse, faz todo possível pra encher o saco da minha ex, que acaba me ligando, chateando Margot. O objetivo de Clarisse é claro: ter Margot de volta.

Fevereiro. Meu plano é usar o Saymon, um ficante de minha prima Josy que se tornou meu amigo. O cara é um falastrão, metido a garanhão, e eu o sondei pra saber se ele me ajudava com Clarisse. Claro que daria uma grana a ele, nada muito caro, nem elaborado. Era só ele dar em cima da Clarisse, bem chato mesmo. Houve um tempo que ela curtia caras, e é nisso que eu aposto. Ele chega dizendo que lembra dela com algum cara, e que sempre foi muito afim dela. Plano perfeito.

Março. Margot saiu para o trabalho mais cedo. Eu fiquei, conspirando com Saymon pelo celular, o primeiro dia do plano contra Clarisse. Cheguei a pensar em avisar a minha ex, mas ela não ia concordar, afinal ela é funcionária da Clarisse. Descobri o horário do almoço do inimigo, avisei ao Saymon, e fui trabalhar. Eu queria ser uma abelha pra ver tudo aquilo acontecer! O constrangimento de Clarisse. Quero ver ela nem ter tempo pra pensar em Margot.

Na hora do almoço no meu trabalho eu ligo pro Saymon. Ele me fala que o plano deu parcialmente certo. Como assim? Ele me conta que Clarisse já o conhecia. E ele realmente lembrou dela. Eles foram parceiros em um curso pré-vestibular anos atrás. E eu com isso? Só quero ela longe da minha namorada. A parte boa é que ele a convidou pra um barzinho e ela topou. Vamos ver.

Abril. Josy pegou no pé de Saymon, quer namorar, e ficou desconfiada das constantes saídas dele. Pior que isso, ela jura que eu tenho algo a ver com isso. E eu tenho mesmo. Não poderia estar mais feliz. Saymon e Clarisse estão se vendo quase todos os dias. Barzinhos, happy hour no Centro, tudo bancado pelo papai aqui. A Margot está tranquila, distante disso. Meu plano está dando certo. Só tenho que achar o fim pra essa história. Meu dinheiro não pode ficar bancando tudo isso por tempo indeterminado.

Maio. Margot pediu um tempo no namoro, logo no dia que a gente ia fazer 2 anos juntos. Eu não sei o que pode estar acontecendo. Estávamos bem, a Clarisse havia sumido, minha ex também, era só eu e ela, e me acontece isso. O Saymon me confirma que Clarisse já está de olho em outra mulher. A Josy me conta que ela e Saymon estão muito bem, mas sei que ele vai trair sem pensar. Margot não me atende em determinados horários, evita chegar em casa cedo, os finais de semana agora são exclusivos para "dormir na casa da mamãe". Eu estou atônito!

Junho. Esse mundo está de ponta cabeça! Eu posso ser o cara mais atrasado do mundo, mas não entendo esse povo. Como pode? Margot e Marília estavam tendo um caso, e eu não percebi. Estive por tanto tempo achando que Saymon havia me livrado de Clarisse quando na verdade meu maior inimigo era a minha ex namorada. Como fui tão cego? Margot procurou Marília por ciúmes de mim, e acabaram se conhecendo melhor, e melhor ainda. Melhor até demais, pro meu gosto. Agora Margot busca Marília no trabalho, e eu sou motivo de piada de Clarisse que, de alguma forma, ficou sabendo do meu plano. Uma tragédia.

Julho. Margot quer voltar. Descobriu que "aquilo" não era o que ela queria pra sua vida. Dispensou Marília, que espalhou pra comunidade gay diversas fofocas maldosas. Daí ela viu Marília ficar com uma mulher "nojenta", e foi aquilo que a fez pensar na "cagada" que ela fez comigo. Então estava ali, pedindo perdão, querendo saber se a gente ainda tinha alguma chance. Eu tinha a faca e o queijo na mão. Podia humilhar, gritar, deixar toda a humilhação e ressentimento sair como um tigre e ataca-la. Mas aqueles olhos...

Dezembro. Eu e Margot esperamos uma menina. Quinto mês. O nome será Andrea.

Cheers!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

O encontro no parque

Aquele encontro marcado para meio dia, um trânsito dos diabos, e o chocolate derretia dentro da caixa devido ao calor. As buzinas soavam e lá ao longe dava pra distinguir o apito do agente de trânsito. Aqueles vendedores no meio dos carros, adesivos e mais adesivos, com mensagens bregas, o ócio involuntário dentro do carro. Esqueceu até a pressa.

Uma leve dor de cabeça, na têmpora esquerda. Arruma o terço pendurado no retrovisor, dá uma olhada no carro ao lado, pessoas igualmente irritadas. Um casal e uma criança. Um carro popular da cor verde escuro, com um amassado na lateral. Provavelmente iam passear, ele pensa. Aquela família queria sossego, mas estava ali, pagando o preço que uma grande cidade pede.

Pensou em sua namorada. Pressa! Esse sinal que não fica verde, pensou. Os bombons estão derretendo, e ele ainda não havia comprado o urso de pelúcia com a frase personalizada que ele havia encomendado no shopping. Angústia. Ela deve estar chegando lá, e cada minuto que passa ele imagina o rosto de ira dela. Diabo de cidade, engarrafamento em pleno sábado!

Sinal verde!

Os carros iam como se engatinhando, afunilando da avenida até o acesso ao shopping. A hora já havia passado. Meio dia e quarenta. Ele vai morrer se não chegar em vinte minutos. Está com aquela esperança tola por achar que vai entrar com o carro no shopping, arrumar uma vaga, descer do carro, seguir até a loja, o maldito urso já vai estar na prateleira e embrulhado segundo suas especificações, ele vai pagar pelo urso, sair da loja, entrar no carro, sair do shopping, dirigir por 6 quilômetros, estacionar o carro no parque, encontrar a namorada a tempo de "arrumar a surpresa" e, finalmente, dar os presentes logo que é pra ela não reclamar.

Uma hora e vinte e oito. Seu namoro acabou! Ele estava a um pouco mais de 3 quilômetros do parque, e o calor já havia feito ele suar a camisa branca inteira. Ele balança levemente a caixa de bombons, um barulho seco. O chocolate agora deve ser uma barra só, pensa ele. Mesmo assim ele dirige com cuidado, sem acelerar muito. Desejava ter saído mais cedo, mas o cachorro sujou o pátio de sua casa com tanto lixo, ele teve que limpar. Tinha planos de economizar no dinheiro do motel e levar a namorada pra sua casa. Prático.

Ele chega ao parque. Dá uma última verificada na caixa de bombons, arruma rapidamente o maldito urso, o cartão com sua mensagem de amor. Sai do carro, tranca o carro, liga e desliga e liga novamente o alarme, caminha sorrateiro e atento procurando aquela mulher de cabelos negros. Ele não sabe como ela está vestida. Muitas pessoas no parque naquele dia. Ele procura nos lugares mais vazios, ela pode ter ido pra lá, afim de privacidade. Nada. Procura embaixo das árvores, onde já estão outros casais. Nada. Na parte mais afastada após o laguinho, onde ficam os fumantes. Nada. Aquela angústia. Ela se foi. Tudo acabou! Ele falhou! Rodou e rodou o parque. Tristeza. Abatimento. O urso sorria dentro daquele embrulho transparente com corações. Ele vai até a beira do lago, respira fundo e liga pra ela.

- Me perdoa amor, cheguei só agora por causa do trânsito! O que eu posso fazer pra compensar esse atraso gigantesco? Me perdoa, meu amor? - diz ele, desesperado.

- Amor, estou no ônibus, não posso falar, posso ser assaltada. Estou indo ao parque ainda. Quem se atrasou fui eu! Me desculpa. Passei pelo mesmo engarrafamento que você. Me espera, tá? Te amo!

Ele fica atônito, e seus músculos relaxam. Põe o celular no bolso, dá uma olhada no urso, e sorri. Ele senta próximo do laguinho. Em sua frente está, feliz, a família de três pessoas do carro popular verde. Ele ri. Fica em paz.

Cheers!

De Loé-Yoru

Ghan amava Loé, e um dia Seron matou Ghan e fez de Loé uma escrava. Um mercador chamado Faroé passava pelas terras de Seron e encontrou Loé e se apaixonou por sua beleza. Faroé vendia para o líder da tribo, e resolveu pagar a ele pela liberdade de Loé. 

O líder ordenou a liberdade de Loé, mas Seron não obedeceu, e a acorrentou no fundo de uma caverna, com somente um vaso com grãos e um pote com água, despiu as roupas dela e as jogou num rio longe dali. Seron foi morto pelo líder, sem dizer onde havia acorrentado Loé. Faroé então passou a procurar por Loé por dias, até achar suas roupas no rio.

Achando que Loé havia morrido, Faroé desistiu das buscas e foi embora daquelas terras. No fundo da caverna, Loé já perdia as forças, e já havia desistido de gritar por socorro. Ela lembrava de Ghan, e de seu amor por ele, e de sua tribo. Sua tristeza foi silenciando cada vez mais seu coração, e sua esperança foi morrendo com ela.

Então, sem alimento e água, prestes a dar seu último suspiro, Loé viu uma luz crescente vir do fundo da caverna. Braços de luz levantaram sua cabeça, e ela sentiu um sopro de vida que a reanimou. A corrente se partiu com um estalo, e logo ela se via de pé.

Loé então perguntou - quem és? - mas os braços recolheram e sumiram, junto com a luz. Ela tremeu com o súbito frio que sentiu, e logo começou a escalar a caverna. Sua força voltara como nos dias mais felizes, e seu cabelo não estava sujo. Ela olhou para a saída da caverna e sorriu. A luz da lua banhou seu corpo nu.

Um ancião que colhia cogumelos encontrou Loé num caminho à beira de um morro, e a acolheu. Loé não falava nada, só sorria, e o ancião, após muito tentar saber sobre ela, deu-lhe um nome de Yoru, que era o nome de sua filha falecida. Alguns dias se passaram e Loé conviveu com o ancião, sorridente, ajudando na casa, como uma boa filha.

Mas um dia Loé parou de sorrir, e o ancião, que voltava da mata com uma pequena lebre para o jantar, viu pela primeira vez aquela bela mulher falar.

- Obrigado por tudo que fizeste a mim, ancião! Fui muito bem tratada enquanto estive com você aqui, e em honra de sua confiança e compaixão, adotarei o nome que me deste! Mas que infelicidade a minha não saber do vosso nome!

- Meu nome é Er-Danzu, o mais velho dos meus irmãos. E você não precisa me agradecer, eu vi você num sonho! E pouco antes de encontrá-la, uma mulher me apontou onde você estava, mas nada falou! Quando vi que você também não falava, segui meu sonho! Agora eu tenho Yoru de volta! - alegrou-se o ancião.

- Que mulher lhe apontou onde eu estava? - questionou Yoru.

- Uma mulher baixa, escura, de olhos estreitos, com uma vasta cabeleira até os joelhos, nua e envolta de limo, de onde brotavam pequenas flores, e alguns cogumelos, que eu procurava para fazer o chá que ia te curar, como no sonho. Nunca vi cogumelos como aqueles aqui nessas matas, mas aquele era sim o cogumelo que eu procurava. Para o chá, como no sonho. - disse o ancião.

Assim, com esse mistério a descobrir, Yoru despediu-se do ancião.

- Que os Imortais te protejam e te recebam nos Douros, Er-Danzu!

Mas o ancião lhe deu mais um mistério.

- Yoru, eu sei que você vai embora. Eu vi no sonho! Mas devo te dizer que seu coração está dividido. Seu amor por seu marido, ou vingar-se do homem que matou seu marido e te fez escrava. Assim como vi no sonho, te direi, escolha bem seu caminho. Muitos perigos estão lá fora para você. Descer ou subir, queimar ou mergulhar, amar ou vingar. Eu a quero bem, minha Yoru. Mas sei que vai ser tudo como no sonho. - falou o ancião, triste.

Assim Yoru foi embora da casa do ancião. Seu coração ainda estava relutante de qual caminho seguir. Voltar pra sua tribo, tão distante, ou vagar pelas terras ermas. Muitos planos e poucas certezas.

Assim começou a grande tragédia de Loé-Yoru, que viria se tornar a lenda mais famosa a se contar para assustar as crianças vários séculos depois. A história da mulher que foi dos Pósuos aos Douros, inspirando gerações de aventureiros de Solari.

terça-feira, 14 de junho de 2016

De G'jia e Annon

G'jia estava completando seu primeiro milênio em Tardessa e seu pai, Oong'dulu já pedia um neto. Após tanto tempo sua filha não havia se interessado por nenhum tardessiano, e seus longos vinte e oito mil anos assustavam, pois estava velho e cansado daquele mundo.

Um dia, diante as praias de Oulata, em Rúnu, G'jia passeava com seu secto real quando uma delas encontrou uma rocha de um amarelo brilhante. G'jia recebeu a rocha em suas mãos e logo uma euforia correu seu corpo, e suas pernas ficaram moles, seus lábios ficaram secos e sua pupila se dilatou. Ela sorriu. Seu secto achou que era algo ruim, e tentou tirar a rocha das mãos da princesa, mas ela se recusou, e correu para dentro do mar.

As águas do mar pareciam línguas de fogo, que não queimavam nem feriam, e G'jia percebeu que aquela sensação era muito boa, carnal, e vinha da rocha brilhante. Seu secto por vezes tentou dissuadir a princesa a sair do mar, mas ela estava num transe consciente, experimentando sensações que ela nunca havia sentido. O vento em seu cabelo lhe causava um furor, e seu corpo tremia. A espuma das ondas lhe faziam rir.

Então, como se estivesse saindo de um sonho, ela quietou e caminhou para fora do mar. O secto, alarmado, a seguiu, de longe, como ela logo ordenou. G'jia caminhou muitas milhas, e seu secto ainda preocupado, já havia mandado emissários avisar ao rei e aos guardas reais. Ela caminhou até uma encosta onde havia uma grande rocha, semelhante a uma cadeira. Subiu sem esforços e ali ela depositou a rocha, assentada na rocha.

Um grande ruído de trovão e uma língua de fogo e água subiram, e G'jia se viu envolta numa nuvem de vapor, mas sua pele não queimava nem feria. O secto e os guardas reais lá ao longe se assustaram, mas não conseguiam se aproximar por causa do grande calor. G'jia levantou-se e abriu os braços como se fosse abraçar alguém. Então, como um raio que partiu o céu, Annon'bi'emac surgiu em sua frente, com seu cabelo dourado radiante. Suas roupas eram azuis com desenhos de ondas, e calçava umas botas cheias de conchas. G'jia o abraçou, falou algo em seu ouvido, e então ele falou com ela.
Eu estava preso neste mundo
Sozinho e apagando
Com o coração partido e esperando
Que você viesse!
Então G'jia mais uma vez o abraçou, e falou a ele.
Eu vim, amado!
Mas eu me sentia igualmente sozinha e apagando
Com o coração vazio e esperando
Que você viesse!
Annon'bi'emac olhou para cima, e um outro raio partiu o céu num estrondo. De lá desceu uma coroa dourada, com uma safira engastada na frente e dois topázios imperiais acima das orelhas. Ele segurou a coroa e coroou G'jia, que sorria. Ele então falou a ela.
Nós estamos presos a esse mundo
Que não é destinado para nós!
Aceita ser minha Rainha
E serei um Rei para vós!
De longe, chegando em seu cavalo, o rei Oong'dulu assistiu sua filha ser coroada, e se espantou com tamanha magia. Seu coração se encheu de ira, mas percebeu que Annon'bi'emac era um do povo dos Mentarnaeu, descendentes diretos dos deuses.

G'jia aceitou ser Rainha, e logo sua vida se alongou muito mais que a de seu pai. Oong'dulu retirou-se do trono, e em menos de duzentos anos seu neto, Ágolos, nasceu. Pouco mais que cento e oitenta anos depois, uma neta, Hésife, nasceu. O velho rei se alegrou, e muitas celebrações aconteceram por séculos. O reino estava alegre, governado por um Deus e por uma Rainha.

Oong'dulu morreu com trinta e quatro mil anos, e ao redor de seu túmulo muitas árvores nasceram, dando origem à Floresta de Détilos, conta a lenda. Ágolos assumiu o trono do reino com sua irmã Hésife quando seus pais, que nunca mais envelheceram, ascenderam e foram para a morada dos Mentarnaeu.

Esta é a origem, segundo o povo branti, dos homens que povoaram Solari, tendo em seu maior exemplo Martim, o Senhor dos Homens, Pai dos Homens, Orador dos Homens, Defensor dos Homens Menores.

sábado, 11 de junho de 2016

É a vida!

Meu extremo mau gosto. As enrascadas que eu passo por causa do meu extremo mau gosto. Quantas vezes ficarei constrangido, ou até triste, por causa do meu extremo mau gosto. Se arrependimento matasse, eu estaria, nesse momento, numa UTI, ligado a aparelhos.

Aqueles olhares, aquelas pessoas cochichando enquanto eu passava, a vergonha que Denise teve ao me avisar que ali, naquele momento, eu era o centro das atenções, e das críticas. Eu era um pária que visitava um reino distante, o homem sem pudor no meio dos recatados. Aquela sensação na barriga, minhas pernas ficaram bambas. E o pior foi o rosto de Denise se contorcendo. Eu não era bem visto.

Tentei buscar a mão dela, mas ela evitou. Não me abandonou, mas evitou o contato físico. Era compreensível naquele momento, mas era justamente o que eu não queria: ficar sem o toque das mãos dela. Eu rapidamente encontrei dezenas de lugares onde fixar o olhar, como se fugindo dos olhares das pessoas, que agora quase cercavam o "casal estranho". Acho que vi duas ou três pessoas discretamente fotografando ou filmando com seus celulares aquela cena incrível e vergonhosa. Denise parecia muito abatida.

Lentamente caminhamos, ainda sem rumo, torpes pela extrema atenção que nos davam aquele povo. Eu tentei dizer algo, e antes que eu terminasse de balbuciar ela respondeu com um "aham", balançando a cabeça assertivamente. Eu percebi que Denise não conversaria comigo. Não ali. Então busquei com os olhos um lugar onde pudéssemos ficar sem aquelas pessoas nos olhando. Encontrei uma pastelaria. Fomos para lá.

Acho que o dono daquela pastelaria nunca havia vendido tantos pastéis em menos de 10 minutos. As pessoas nos acompanharam, parecíamos magnetos atraindo metal, e agora Denise estava realmente acuada. Eu pensei em reagir, gritar com aquelas pessoas, mas só a assustaria mais. Eu havia comprado um pastel pra mim, e outro pra ela, um refrigerante pra mim e um caldo de cana pra ela. Mas o pastel estava amargo com tantos olhares, tantos flashes. Então resolvi mudar tudo aquilo novamente.

Particularmente meu extremo mau gosto é fruto de anos de prática. Posso ser o último homem no mundo a ter tantas excentricidades, sou um raro espécime dos "bastardos", o evitável estranho. Mas Denise é uma bela mulher, com um belo sorriso e belas ideias. Temo o dia que eu a perder. Me encontraria, finalmente, no inferno de onde as pessoas acham que saí. E tudo deixaria de fazer sentido. Eu seria mesmo o estranho no ninho, finalmente.

Então, num belo dia, uma parada cardíaca me levou. E o mundo perdeu um pouco da sua estranheza. Estou numa cama de hospital a 6 anos, e escrevo isso com uma caneta especial em um tablet, pois tive um derrame em seguida, quando tentavam salvar minha vida. Não falo, minha paisagem é uma avenida em frente ao hospital, e, num dia longo, as fisioterapias me deixam cansado. A Denise me visitou umas sete vezes, mas já se vão quase 4 anos que ela não vem. Deve ter me esquecido. Ou tido uma parada cardíaca. É a vida!

Vou morrer sem ela. Finalmente.

Cheers!

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Os mortos sofrem

Um copo de vinho pra cada. Um par de velas acesas. Música ambiente, volume baixo. Talheres e guardanapos. Uma faca suja de sangue. Carne nos pratos. Olhos nos pratos. Mãos nas mãos. Um inexplicável cheiro de lodo. Muito sangue, por todo o lugar. Um garfo enfiado na nuca dela, dois golpes de faca no pescoço dele. Um cartão decorado com anjos, manchado de sangue em cima da mesa, em frente ao copo de vinho dela. Algo escrito. Letra cursiva.

Não fui o marido que você merecia, nem o melhor provedor para as necessidades que você merecia. Não fui o melhor pai, nem o melhor ouvinte nos momentos de crise. Sou esse ser humano, cheio de defeitos. Defeitos que me fizeram perder você. E eu estive sozinho por tanto tempo.
Agora você me dá essa chance. Quer me ouvir. Se soubesse como foi bom ouvir sua voz no telefone, propondo esse jantar. Meu coração está feliz, e estou disposto a ouvir. Estou disposto a mudar. Por você, pelas crianças, pela nossa família.
Esse cartão eu deixo para você. Se está lendo até aqui é porque tudo nesse jantar ocorreu bem, e estamos bem. Aceite me ver mais vezes. Prometo me tornar o homem que você merece ter. Ainda amo você!

Hugo

Provavelmente um jantar de reconciliação. O nome dele é Hugo, e esta é a casa dela. Os cães mortos ali fora são delas, então. A cozinha revirada, ali houve luta corporal. Eles não foram mortos à mesa. Foram postos aqui. O sangue por todo lado não é deles. Mais alguém morreu aqui, mas onde está o corpo. Alguém morreu e ninguém percebeu. "Enquanto os vivos celebram, os mortos sofrem". Uma ideia errada. Talvez. A única ideia que pode explicar essas mortes. Talvez. Mas, na mesinha ao lado do sofá, uma pista. Um porta retrato. Ela e um homem, branco, baixo e de terno, e ela de vestido azul. Quem será?

Cheers!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A Paciente

A coruja está observando a águia. Na noite sem lua esses olhos são o mau agouro dos viajantes, e nem os animais se atrevem a sair de suas tocas, de seus ninhos. A águia está tranquila. Ela sabe que é observada. E em noites seguidas essas duas caçadoras se esquivam, evitando olhares mais soturnos. E os animais estão tensos, medrosos.

O lobo observa a ovelha. Em dias de chuva não há proteção, nunca se sabe o momento de um ataque. O lobo se aproxima da cerca, fareja, mas volta para a floresta. Ele está cansado. quer desistir. As ovelhas percebem seu desânimo, e se distanciam mais. O sol está nascendo no leste.

Cheers!

sábado, 9 de abril de 2016

"You must trust in me"

Encontraram o corpo da jovem no vigésimo sétimo dia após seu sequestro. Disseram que havia, ao lado do corpo, uma placa de carro roubado a um ano atrás, que continha a inscrição "BuG do milenio", gravada grosseiramente na parte de trás da placa. Na vítima só havia um corte no ombro.

Os investigadores logo associaram a inscrição a um outro assassinato de um rapaz, em Maio. Neste caso a placa de carro roubado continha uma inscrição com uma grafia diferente de duas maneiras: a letra era cursiva e o texto era "Bug do mileNio". Era uma pista, mas algo que o assassino havia deixado de propósito. Era de se desconfiar.

Realmente "Bug do Milênio" foi um problema da informática que causou preocupação mundial, com consequências reais, mas isso não nos levava a entender qual a mensagem que o assassino queria deixar. Uns teóricos achavam que aquilo era aleatório, mas meus amigos não compartilhavam dessa opinião.

Agora em Outubro surgiu mais um corpo. Uma jovem que trabalhava numa lanchonete. Um modus operandi diferente, mas a placa estava lá, agora com a inscrição "bug do milenio" gravada grosseiramente. O corpo estava semi mutilado nos cotovelos e nos joelhos, e todos os dedos das mãos e dos pés foram retirados, e não encontrados. Os investigadores já acham que é outro assassino querendo simular os "métodos" do primeiro. Provavelmente um amador.

Quase dois anos se passaram e nenhuma pista do assAssino de AliCe.

Cheers!

sábado, 2 de abril de 2016

Rir da fatalidade

Foi divertido chegar naquele lugar úmido e abandonado e ver todos aqueles moleques dançando pelados ao redor de uma fogueira, como se fossem nativos entrando em conexão com a natureza, vocalizando cânticos e palavras ininteligíveis, levando as mãos ao alto como se evocassem deuses ancestrais. Foi realmente divertido ver aquela cena. Um bando de drogados sacaneados por alucinações de uma droga avassaladora. Marionetes infames.

Slash é o nome de uma nova droga. Promovia sensações das mais variadas, alucinógenas e psicodélicas, e a grande maioria das pessoas que experimentavam, se tornavam rapidamente submissos, melhor dizer viciados, a essas sensações. Ouvi relatos de pessoas que experimentavam, inclusive, dependendo da dosagem, a privação de algum sentido, algo que eu jamais ouvi falar por outras drogas. Pessoas que ficavam dias sob efeito da droga, com suas mentes ocupadas, completamente distantes da realidade ao seu redor. Era triste.

Essa droga era vendida nos mais diversos ambientes. Ricos e pobres, nem classe nem gênero, a droga estava dominando o mundo numa escalada jamais vista. O mundo, de repente, se viu tomado por zumbis viciados em Slash. Os governos não estavam preparados, e em poucas semanas após os primeiros registros do uso dessa droga, logo surgiram pesquisas mostrando a sua rápida ascensão, sua distribuição fácil e quase imperceptível. Slash é vendida em ampolas de poucos centímetros, um líquido transparente ou levemente amarelado. Cerca de 5ml da droga era o suficiente pra um dia inteiro de "barato". E o que dizer do preço? Você compra facilmente pelo mesmo preço de um fast food médio!

Mas o que incomoda mesmo os governos e orgãos de saúde pública é a facilidade de produzir o Slash. Obtido a partir de um processo químico cuja matéria prima são um tipo de cogumelo, uma raiz e uma casca de árvore, mesmo alguém com poucos recursos, mas com a matéria prima na quantidade certa, duas panelas, um coador, um fogão e um prato, pode produzir bastante droga, mesmo que numa pureza duvidosa. Já os grandes traficantes, que se viram "perdendo mercado", migraram rapidamente, e produzem drogas com maior pureza e, claro, as ampolas, que saem num ritmo industrial. A última grande apreensão de Slash se deu na Austrália: 220 litros da droga!

É por isso que eu ri quando fui buscar meu sobrinho, no meio do mato, sujo e dançando ao redor de uma fogueira. Ri da fatalidade. Eu ri do caos. Eu ri do sistema. Ele não é uma vítima. Ele só se perdeu da mãe num shopping, uma semana atrás, e só hoje eu descobri onde ele estava. Um garoto de 12 anos, que provavelmente nunca havia experimentado nenhuma droga. Um garoto de 12 anos, pelado, vocalizando como um animal pré-histórico, ao redor de uma fogueira. Eu preciso rir disso. Logo o efeito passa, e ele vai querer mais. Ele vai desejar se perder de sua mãe no shopping outras vezes. E eu vou rir todas as vezes que isso acontecer.

Cheers!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Carta de um cão

Quando nossos olhos se enchem de lágrimas, o coração fica entristecido, e o caminho se torna difícil, encontramos a paixão. O suspiro e o sussurro, a lascívia e o ciúme, sentimentos opostos em rota de colisão. Sua mente não funciona, e você ignora os chamados da razão. A paixão te devora, te deixa completamente exposto e o tempo urge. O outro é perfeito. O outro é o ser perfeito, e você está simplesmente apaixonado.

Além da paixão, não sei nada do amor.

Cheers!