terça-feira, 19 de janeiro de 2016

São Lázaro

O sabor do vento que vem do mato me lembra a infância. Uma lembrança rica, sentida com detalhes, sorrisos. Velhos em suas cadeiras de balanço, asfalto rabiscado com gizes ou mesmo com o tijolo quebrado, em cacos. Desenhos infantis. Aquele cheiro de pão nas padarias, aquelas senhoras em fila, aguardando para as compras, com sacolas cheias de verduras e legumes e frutas. Um cheiro de pipoca.

As ruas são ladeiras, as ladeiras são montanhas. Eu me canso. Eu me liberto. Vivo o sonho, humano e belo. Corro e pulo, não sigo reto. Brincadeiras de rua. Como me liberto! Pontes e becos, ruas estreitas. Bares cheios de cadeiras vazias e homens na calçada. O futebol no campinho, a bola furada, remendada.

Nova infância sem passado!

Cheers!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Full Moon

Levanta a sua cabeça em direção ao horizonte, assista o sol despontando, iluminando as folhas da amoreira, aquecendo o ar, evaporando o orvalho que cobria todo o gramado. Deixe sua mente quieta por enquanto, com somente o vento a te perturbar. Feche os olhos e lembre das coisas que te faziam sorrir. Sorria com as coisas que te faziam feliz.

Embora tarde, os pensamentos não tem tempo, nem lugar. Afastando sua mente dos maus, é mais fácil perceber o mundo ao teu redor. E então estarás mais próximo das boas energias, e te sentirás mais próximo de estar completo. E dirás somente daquilo que sabes. Serás feliz.

A dicotomia de hoje em dia pode te dividir, e você tende a se dividir, e não acharás nada mais natural do que viver nessa divisão. Dia e noite, céu e inferno, rico e pobre, são apenas opções. Sua mente está pronta para as opções, mas mesmo assim vais ter essa curta visão da vida: ser ou não ser. Então seja muito! Seja vários! Seja algo que você não foi ainda!

Só não deixe de ser...

Cheers!

A Miríade de Sentimentos

Dos seus olhos eu não enxergo a verdade. Pequenos sinais de boa vontade, de seu compromisso, do destino. Não há verdade nos teus olhos. Não há verdades em tua boca, esquecida. Eu não confio em você, imunda!

És o meu melhor presente. Não consigo mais pensar na minha vida sem você, e todo esse carinho está estampado no meu rosto pela manhã, ao te ver deitada, tão linda! E o cheiro do teu cabelo! Há um motivo pra que eu seja tão feliz pela manhã que não seja o cheiro de teu cabelo?

Não te perdoarei! Suas palavras são vazias e tuas ideias são malignas. Eu nunca vi tanto egoísmo, nesses dias negros, de tão pouca esperança. E sei que existe uma razão pra que você ainda estar aqui, ao meu lado, contando mentiras desesperadas. Mas eu não sou estúpido! E não vou te perdoar.

Agradeço aos céus o dia em que você surgiu em minha vida, naquele lugar empoeirado onde trabalhávamos. Seus olhos eram a coisa mais linda e eu logo me apaixonei. O jeito como você arrumava o cabelo, a sua voz macia, e as coisas engraçadas que dizias. Você era um anjo, e eu te admirei por dias, meses. Ser teu amigo foi algo natural, e se tornar teu homem, destino.

Da dor nascem jardins. Do ódio nascem nuvens de chuva. Abençoado o abacate, por ser verde. E uma miríade de velhos sentimentos sacodem o ser por dentro. E chamam de loucura. E chamam paixão.

Cheers!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Homens se entendem

Bela necessitava de um voluntário para ajudar a levar as caixas para o andar de baixo. Eram caixas não muito pesadas, ela necessitava de um mais forte. Olhou cada um dos moleques e sorriu. Escolheu Alessandro e Felipe. Deu as ordens, liberou os demais, e foi fazer o lanche da tarde da molecada. Suco e alguma coisa doce, pensava ela.

Aquela tarde havia sido a mais quente daquele ano. Preocupada com o calor, solicitou que os moleques entrassem. Mário era aquele que sempre reclamava. E ela nem sabia qual era o parentesco dele com João, então suportava o menino reclamão. Ofereceu a tevê, negado. Ofereceu o quarto de hóspedes com alguns brinquedos (quebrados) do João, negado. Ofereceu um filme, indecisão. Ela tinha que dar algo pra compensar. Não sabia o que fazer. Então João chega.

Bela passou o restinho da tarde sossegada, lendo uns livros na varanda.

Cheers!

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Reverse Psychedelic Anesthesia VII

Ao redor da fogueira, o frio.

Sete séculos se passaram e a floresta está adormecida. Estranhos bichos negros agora espreitam, e nenhuma música é ouvida desde quando os senhores da floresta adormeceram, traídos pelo regozijo de muitas eras de Luz e Alegria. Seus espíritos simplesmente exasperaram, e os ares se tornaram carregados de suas essencias, e então seus corpos ficaram solitários, e foram tragados pelas raízes das árvores e fungos. E eu não ouso caminhar num cenário desses. Senti saudade dos animais oradores das melhores histórias Deste Lado do Mundo. Senti saudade dos seres luminosos que, dentre muitos poderes, mitigavam as dores dos imigrantes das montanhas.

Desconheço esse frio cortante. Sinto medo, dezenas de olhos oblíquos, pequenas chamas acinzentadas, me observando. Procuro pelo círculo da fogueira, não está lá. Procuro pelos lampiões, e não estão mais lá. É revoltante sentir esse medo, e decido fazer algo, restabelecer as energias. Busco em minha mente alguma das canções transcendentais. Então eu canto, e ao fazer isso toda a Floresta treme, e um calor súbito arde em meus pés. Em um segundo um grande Urso surge, e ele está frio, e sujo, e magro.

O livro todo treme. Começa a chover.

Cheers!

Cinza e Marrom

Doces notas, o caminho até a rede, ócio e pensamento longe. Sem vento, calor e sono. As formigas carregam o fruto de seu trabalho, latidos e miados. A tarde se aproxima, mais calor e pouco vento. Almoço.

Apaixonar-se pelo olhar da cadela, tão carinhosa, fitando meus movimentos. Palavras gentis, afagos e afagos. Vento e cheiro de carne assada. Cheiro de perfume barato. Calor agoniante.

Breve descanso.

Cheers!

sábado, 9 de janeiro de 2016

Requiem à uma amizade

Aquela discussão dentro do táxi. Todo aquele ódio, aquela ira. João rugia, e Bela tentava de todas as formas o acalmar. O taxista corria, afim de se livrar do casal barulhento. Já havia testemunhado muitas discussões, mas nada tão raivoso. As curvas bruscas, o cheiro de cigarro na mão esquerda de Bela, o hálito de bebida e a saliva que saltavam da boca de João, tudo aquilo parecia urgente ao pobre taxista. Um homem de 55 anos, doze de profissão.

O bar era decorado com um bom gosto que Bela logo se sentiu à vontade. Aquela iluminação vermelho sangue dava exatamente o clima romântico que ela tanto ansiava. Mas João não deu a menor atenção à decoração. Estava ansioso pelo reencontro com seu amigo Eduardo. Quase sete anos sem se encontrar, tomar uns goles, falar das conquistas, e das perdas. João sentia o tempo passar como se um minuto durassem horas. Então seu amigo chegou.

Bela havia aprontado uma janta um tanto quanto comum pra um dia tão importante. Cinco anos de um relacionamento livre de rotinas, intenso e apaixonado com João. Ela queria fazer uma pequena surpresa. Vestiu por baixo da roupa comum uma lingerie de renda, escolhida uma semana antes. Passou o dia deixando a casa limpa e cheirosa. Ligou para suas amigas, e irmãs; queria evitar visitantes inesperados. E esperou João chegar da editora. Ansiedade, mãos inquietas. E então ele chegou, sorridente. E antes que ela pudesse iniciar toda a sua surpresa, uma notícia. Eduardo, um antigo amigo de João, estava de passagem pela cidade, e queria um encontro. Daqui a poucas horas. Pouco tempo pra se arrumar.

Eduardo havia mudado muito, pensava João. Aquele amigo boa praça, companheiro, inteligente e educado havia se transformado em um homem rude, machista, cafajeste e muito mal educado. Insistia em chamar João somente pelo apelido jocoso da adolescência. Reclamou da bebida e do tira gosto. Falava mal da esposa, da sogra, dos cunhados e da própria mãe. Xingou seu chefe tantas vezes que chamou a atenção das mesas ao redor. Bela estava extremamente constrangida. João tentava, desesperadamente, manter a calma, e constantemente mudava o rumo dos assuntos, mas Eduardo era mesmo muito bom em estragar qualquer que fosse o tema. Num único momento não-tão-grotesco de Eduardo, João recebeu um elogio pelas cartas e e-mails ao longo dos anos, o que havia mantido a amizade. Então João acalmou-se. Finalmente aquele cara rude voltava a ser seu educado amigo da adolescência. Para garantir que aquele começo seria esquecido, João desculpou-se e informou que ia até o banheiro.

Eduardo, descaradamente, chamou Bela de gostosa. Ela ficou chocada. Ele insistiu. Ela recuou. Ele jurava que já acompanhava cada foto dela das redes sociais. Ela estava horrorizada! Jogou todo o conteúdo de seu dry martini no rosto de Eduardo, aquele cafajeste. Eduardo então levantou-se, ameaçando um tapa. João chegou. Cadeiras e mesas derrubadas. Socos trocados. Muitos xingamentos. Ódio. Desgraça. Choro. Ameaças. Caos. Uma despesa ao restaurante que somente João e Bela iam pagar. Eduardo covardemente havia fugido. Tudo pago. João em ódio profundo, e sua esposa tentando palavras de mansidão. Ela chama um táxi. Discussão.

Obrigado, Pedro Valls, por anos de sua atenção e dedicação a este blog. Uma pequena homenagem, nada próximo do que você realmente merecia. Homenagem que posso estender às minhas divas Flora e Laura Valls. Vocês são dos melhores motivos deste blog ainda existir.

Cheers!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Menores Abandonados

"Agora está tão longe
Ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim
"


O pulso de energias em minha mente. O sopro de vida em palavras. Nunca mais encontrarei a chave de fenda que perdi naquele dia. O sol está tão lindo, e chegou a primavera. Só posso ser aquilo que creio ser. Mais nada.

"Caminhando
esbarro no etéreo refletido
sons desconhecidos
entoam cantos
de pureza esquecida, falida
ofegantes"

Cheers!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Palhaço

Uma beleza horrível!

Tons escuros, péssimo humor, uma anarquia em teu sorriso. A flor que exala fogo abotoando seu paletó verde escuro. As maiores mentiras durante a noite mais esquecida, velhas mentiras. Imagens e originais, distorcidas. Sua respiração e o suor da sua face, algo belo e inexplicável. Olhos límpidos, atitude infantil.

Por anos tu cria teus planos, executa teus devaneios, espalha o caos. Somos todos uns humanos aleatórios. Surpresos com os gênios, confortáveis com os medíocres. Maio, Junho, todos os dias. Grande débito da humanidade, a loucura. Criatura da loucura, criado da insanidade.

Cheers!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Marte e O Cosmos

Perdido em pensamentos, a mente mente ilusões e um passado nem tão recente. Já sei que te livrastes de teu grilhão. Já ligo o elo capaz de ligações. Perdido, decerto incerto. Observo. Uma nebulosa de distância, indiferente instância do querer que não é poder. Perfeitamente solícito, possível mas impassível, indigno de demais palavras adequadas.

Fórmula lenta de curar essa mente inconsequente. Novo vestido de velho, um velho que jaz novo. Caos e deliciosa sensação de devir, sacudindo os moldes dos esquemas da mente. Planos de fuga. Marte. O Cosmos. Segredos febris fabricados em litros. Observo. Divertida dúvida, perdido em pensamentos. Símbolos portadores de significados diversos, códigos alucinantes.

Queijo, cigarro e vodca. Carne, cigarro e amigos. Cigarro, festa e vodca.

Cheers!

Mostruário Urbano I

Em sua pressa ele não percebeu a linda paisagem que passava, rápida, pela janela de seu carro. Não percebeu aquele lindo sol saindo por detrás de nuvens que pareciam um rio que flutuava. Não percebeu os pássaros que cantavam, ainda ao lado de seus ninhos, uma sinfonia maravilhosa. Não percebeu os tons de amarelo e vermelho na copa das árvores. Ele não percebeu o pedinte vindo em direção à sua janela no momento em que o semáforo lhe mostrou o sinal verde. Ele só seguia, automático. Ele só repetia o dia anterior.

Um happy hour com pessoas que ele nunca teve certeza se conhecia, amigos de seus amigos. Novamente aquele bar que ele considerava caro e de péssimo atendimento. Aquele constrangimento de sempre na hora de pagar, existem dívidas maiores que a dele na mesa. A volta pra casa.

Em sua pressa ele não percebeu que sua esposa estava bastante gripada, precisando de cuidados. Não percebeu que ele deu um anti-inflamatório a ela. Não percebeu que seu filho mais velho não dormiu em casa esses dois últimos dias. Não percebeu que não há uma gota dágua disponível para o seu cão, que ainda assim festeja seu raro afago. Não percebeu o arranhão na porta traseira direita de seu carro, fruto de um flanelinha insatisfeito da frente do bar. Não percebeu que o mesmo CD toca a dois meses em seu carro assim que ele o liga. Não percebeu o "bom dia" de um vizinho que ele só conhece de vista, na saída do estacionamento do condomínio.

Este homem tem uma vida trágica. Ele é cego pelo moderno, surdo pelo pandemônio urbano, insensível pelo que lhe é mais cômodo. Nunca saberá o gosto de uma framboesa colhida com as mãos. Nunca saberá como é bom comer as frutas de uma árvore que ele mesmo, anos atrás, plantou com seu filho. E isso é trágico. Seu futuro é trágico. E o de seu filho.

Trágico!
Cheers!

Ela, tão comum

Ela chega em sua casa, vinda do trabalho, e se depara com uma louça limpa, uma casa arrumada e roupas passadas e devidamente guardadas no closet. E isso é natural, afinal ela mora só e não deixa de cumprir com suas obrigações do lar. Uma pessoa organizada, independente. Sua casa é seu porto seguro, seu domínio neste mundo.

Um banho demorado. Dez minutos de dúvida: o que ela fará para o jantar? Peito de frango com molho de vinho e mostarda, ela decide. Aquela receita que a amiga da faculdade a ensinou. Uma música leve no ambiente, cantarola enquanto prepara o jantar. Ela ainda é uma pessoa feliz.

Em vinte e dois minutos ela devora sua solitária janta. Não havia percebido o tamanho de sua fome. Resolve tomar um pouco do iogurte natural. Uns morangos também são deliciosos. E na gula ela devora os pés-de-moleque que um tio havia feito pra ela. Enfim, vai até a sala para assistir aquele talk show que ela ama. Onze e vinte e cinco da noite, o sono já lhe encanta os olhos.

Outro banho, mais curto. Uma roupa leve. Desliga a tevê e vai dormir.

Ela não sabe mas amanhã ela será promovida em seu emprego, e isso mudará o resto de sua vida. Coisas simples não farão mais parte de seus pensamentos, afinal haverá muito trabalho a frente, e ela não quer perder tudo que ela já conquistou. Uma boa aposentadoria lhe espera. Longas viagens e um nada-para-fazer que ela, já idosa, espera viver.

E seu coração, em despedida, morrerá feliz por ter vivido uma vida comum. Cercada de amigos e família, pessoas comuns. Orgulhosa de feitos comuns, símbolo de uma vida dedicada às atividades naturais de um ser humano comum. Ela partirá em paz.

Sossego.
Cheers!

sábado, 19 de dezembro de 2015

Nos jardins estranhos da mente

Nada de abstração ou fantasia hoje.

Deixar meu inconsciente em silêncio. Procurar somente ouvir, perceber, e esquecer o turbilhão de idéias por alguns segundos. Daí pra frente focar numa idéia, concreta, real. Inspirar e expirar. Fechar os olhos por alguns segundos. Aprumar os dedos no teclado. Inspirar e expirar. Abrir os olhos. Escolher o tema. Escolher dentre o turbilhão.

Um caso do passado? Sobre os cães que vi brincarem na praça? Sobre as inúmeras histórias de meus amigos? Sobre a realidade que vejo e escuto em mesas de bar? Um turbilhão de idéias, reais e concretas, tomam minha mente. Troco de música no player, tomo uns goles de água, respondo mensagens instantâneas, e volto à tela e à dúvida. Haveria pior processo? O sono está batendo a porta.

Começo a pensar que a fantasia não seria um tema mau com essa indecisão. Algo a mais sobre Solari? Algo novo em folha? Uma das minhas histórias sem-pé-nem-cabeça? Sobre o que eu posso abstrair hoje? Se ao menos eu tivesse uma garrafa de vodca, uma ou duas doses abririam as portas da percepção, e a energia mental talvez fluísse melhor. Seria algo bem original, sem escolher demais as palavras, algo fluido e espontâneo.

Mas eu já havia decidido. Nada de abstrações ou fantasia hoje. E mesmo assim essa é a única decisão tomada conscientemente até agora. Tomo mais água. Começo a focar mais, fecho os olhos. Inspirar e expirar. Procurar no turbilhão um tema não-abstrato e não-fantástico. Talvez sobre o cenário político? Ou sobre música? Abro os olhos. Dúvida!

Não dá! Se eu deixei meu inconsciente em silêncio, prefiro que ele fale!

É como uma nuvem. Ela passa entre você e o Sol, e aquilo te proporciona sombra, mas você sabe que aquilo é passageiro. E somos todos passageiros nessa Terra. Viajamos atraídos pela gravidade num planeta que gira em torno de si mesmo a 1675km/h, rodeando um Sol numa velocidade que varia até os 109.040 km/h. Sim, agradeça a gravidade te atraindo neste exato momento.

E mesmo que eu soubesse escolher rapidamente um tema, consciente ou inconscientemente, não faria mais que filtrar o publicável. Isso me torna também um passageiro das maquinações da minha mente. E um espectador do que meus olhos, a uns milisegundos atrás, captaram no passado, e meu cérebro me diz ser o agora.

Como posso, então, me enganar na tentativa de escrever algo não-abstrato e não-fantasioso? Será que minha dúvida não é somente esse "ser consciente" dizendo, dentro de mim, que a realidade é somente a minha construção mental do que é, de verdade, a realidade? Será que já decidi o que escreverei ano que vem? Será que eu ainda não decidi o que eu escrevi dois anos atrás?

Ah! Esse turbilhão as vezes quase me afoga!

Cheers!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Orientações aos Poderes e Paladinos

Queimem os malditos corpos em altas fogueiras. Alimentem as chamas por, no mínimo, três dias. Desfaçam o fogo, cavem um buraco enterrem as cinzas. Cerquem o buraco com pedras da região, para que todos saibam que ali é um lugar maldito, e que não se deve ali plantar. Aguardem ali até a próxima lua cheia, para se certificar que não haverá nenhum animal que dali sairá ou que abrirá o buraco.

Sigam para uma vila mais próxima e lave-se dos pés à cabeça. Recomendo usarem alathi e poserana em infusões para banhar as mãos e os cabelos. Uma vez banhados, devem usar os unguentos de sua casta para livrar-se de eventual mau cheiro que possa permanecer. Lavem também seus cavalos, seus pertences e seus armamentos. Nada deve permanecer impuro, e se permanecer, deve ser deixado para trás.

Após esse rito de purificação, sigam para o Templo. Os Templos de Ennircás e de Ftorin (Fedórin) são os que eu recomendo, pois são as castas mais procuradas pelos guerreiros para as purificações após o contato com seres malditos.

Por duas ennas (semanas) vocês não poderão ver suas esposas e filhos, mães e pais, e qualquer ancião de sua família. Enquanto isso, juntem os espólios da batalha e façam a divisão com o Templo. Isso será o pagamento. Quando as duas ennas passarem, exijam uma reunião com o Sacerdote e eles os abençoará. Em seguida podem seguir para suas casas.

Lembrem-se que há uma eventual regra após sua apresentação ao Templo, e essa regra só existe em algumas castas. É a regra que diz que sua mulher não deve engravidar nos três sennas (meses) seguintes após sua volta da guerra, pois poderá cair sobre ele a marca da guerra. É claro que deves observar todos os ritos de sua casta, para que livres teus filhos dos maus augúrios do Deus da Guerra.

Sigam essas palavras e lembrem-se que o Templo são vocês! Que Ganaer ilumine vocês!

Sósmeles, em Jarcan.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Se ainda me leia a mente, serei

O meu alcance é a diferença entre sua imaginação e a minha ousadia!

Lembre disso quando pensar que sou quem pensa que você está pensando no que estou pensando!

Me liberto de suas amarras! Sei lá, correntes! Sinto mais que sou independente. Um louco liberto mostrando os dentes. Um singelo homem.

Me veja e fale comigo! Te peço, não quero, só peço. Sou defectível. Creia. Sou falho! Não peço, sou falho, só veja. Sou defectível, só peço. Não veja, mas fale comigo!

Silêncio. Silêncio. Dentro de mim.

Silêncio. Dentro de alguem. Enquanto pensa o silencio.

O meu alcance é a diferença...

...amarras...

fale comigo!

Cheers!

Vozes de uma dualidade

Não! Meus olhos não te observam!

Mas te seguem! Te enxergam! Meus olhos e meus sentidos te percebem!

Meus sentidos esquecem fácil.

Avisos. Alarmes. Soares de campainhas! Acordo!

Percebo que minha memória não será traída. Minha memória guardará minha parte humana, enquanto serei humano. Serei humano. Enquanto serei memória, serei humano. Seja humano, seja memória!

Eu viverei em harmonia com minhas ideias inumanas de harmonia! Não serei inumano enquanto memória, não serei memória enquanto humano. Logo assim não serei o que serei!

Penso!

Se existo, logo penso: memória ou inumano? memória ou raciocínio? memória RAM ou ROM? De onde vim?

Pergunte-me!

Respondo com meu pensamento! Inumando! Racional! Mimético! Raiz!

Não sei! Tu me dizes? Por favor, me dizes. Lá, nos comentários...

Cheers!

sábado, 28 de novembro de 2015

5.000.000.000 de anos

Reapresentando este texto, de minha autoria, retirado de outro blog.

Um dia nossa Via Láctea vai se chocar com a Nebulosa de Andrômeda. Após isso, presume-se, uma nova chance à vida vai se formar, e talvez toda memória que preservamos se extinguirá. É claro que levará muito tempo pra isso, algo em torno de cinco bilhões de anos. Mas é algo palpável, segundo a ciência.

Pensando assim não dá muita vontade de escrever poesia, um conto elaborado, um diário ou mesmo uma pequena anotação. Não dá vontade de ter filhos, de plantar uma árvore ou de ajudar o próximo. Pensando assim não há muitos bons motivos para deixar nada pra posteridade, até porque a natureza do Cosmo não costuma fazer acordos. Não há muitos bons motivos pra tanto labor e tristeza, tanta riqueza e empatia, a posteridade está condenada.

Mesmo assim, se nem de perto a nossa Via Láctea passar da Nebulosa de Andrômeda, cinco bilhões de anos mais tarde será tempo suficiente para apagar qualquer aviso que se dê hoje, e hoje será um passado tão remoto que será ignorado. Imagine alguém que pesquisa um passado de cinco bilhões de anos. Agora imagine esse alguém tomado da vontade de fazer um exercício de concentração para entender o que se passa hoje. Hum, pensando assim aquele, cinco bilhões de anos na nossa frente, não estará muito mais evoluído do que os de hoje.

Pronto! Mexer com o futuro é mais danoso do que fuçar o passado. Prefiro ser finito, de oitenta e poucos anos e dois filhos, cinco netos e um bisneto que levará meu nome. Prefiro sentar-me e imaginar que daqui a cinco bilhões de anos eu não vou ter feito a menor diferença pras rotas cósmicas da nossa galáxia.

Pelo menos até que eu me mude.

A imagem por trás da tela

Reapresentando este texto, de minha autoria, retirado de outro blog.

Todas as noites em que Cassandra chegava em casa depois da meia noite, de mau humor, subia as escadas fazendo barulho, com o cigarro aceso numa mão e um molho de chaves na outra. Parava no topo da escada resmungando coisas inaudíveis, ligava a luz do corredor e ia, a passos pesados, ao quarto de sua irmã, Lívia. Abria a porta, como quem quer tomar satisfações de algo, e se avolumava na entrada.
O quarto exalava um cheiro heterogêneo, uma mistura de fumaça de cigarro e perfume caro. No cinzeiro havia muita cinza e uns quatro filtros amassados. Uma garrafa de vodca vazia, algumas revistas, sapatos e uma bolsa estavam jogados no chão.
Finalmente, espalhada em cima da cama estava sua irmã Lívia, vestida num pijama estampado de ursinhos. Cassandra ligou a luz do quarto, revelando uma bagunça muito maior.

— Quantas vezes eu vou ter que dizer que eu não quero que você fume dentro de casa? — falou, muito nervosa.

Lívia não respondeu

— Quantas vezes eu vou ter que dizer que eu não quero que você fume dentro de casa? — gritou.

Lívia mexeu-se na cama e tapou os ouvidos com uma almofada.

— Não finja que não está me ouvindo, Lívia! — continuou — Quantas vezes eu vou ter que dizer que eu não quero que você fume dentro de casa? Quantas vezes? — gritou.

Lívia apertou mais ainda a almofada nos ouvidos. Irada, Cassandra pegou o cinzeiro e o atirou no espelho, que trincou, fragmentando a imagem de sua silhueta na porta.
Lívia levantou de súbito da cama, olhando para o espelho quebrado. Voltou-se para sua irmã mais velha e a encarou, nervosa.

— Quantos homens você vai ter que amar para esquecer desse dia, Cassandra?

— Você está bêbada... — disse Cassandra.

— Quantos homens você vai ter que abandonar para esquecer dessa noite, querida irmã? — falou Lívia, fitando a irmã nos olhos.

— Você não respondeu a minha pergunta! — gritou Cassandra.

— Quantos anos mais você vai tentar repetir tudo aquilo? Eu quero entender! Quantos homens mais você vai ter que usar para esquecer do que aconteceu, sua velha maldita? — disse Lívia, iniciando ali mais uma das brigas mais faladas em todo prédio.

Uma vida em Mi Menor

Reapresentando este texto, de minha autoria, retirado de outro blog.

Eu achei um tesouro nos teus olhos, mas quem me dera tivesse teu olhar nos meus. Havia tanto a te dizer, um louco apaixonado somente esperando o dia certo, a ocasião. Nada de palavras decoradas, somente uma sinestesia que tomava conta de mim quando te via. Ah, meu coração saltava do peito quando passavas! Eu corria para o portão para te ver, no horário que chegavas do teu trabalho. Eu acreditava que um dia olharias para mim, e o brilho do teus olhos me enfeitiçaria, e em breve serias minha. Sim, eu cria nisso.

Um dia, porém, eu a vi novamente. Anos de espera já haviam me tornado um paciente algo cansado, mas aquele dia eu deixei todas as palavras do passado no seu devido lugar. Eras tão bela naquele vestido branco florido de flores carmim! Eu deixei o que fazia por alguns instantes e te olhei. Notei que as pessoas paravam quando tu passavas, todos te admiravam. Novamente no meu peito queimou a velha chama do passado, como se eu me reaproximasse do calor da paixão que nutria por ti. Ali, naquele momento, o esplendor de tua passagem moveu meus sentimentos e minhas forças na direção do nobre sentimento. Mas eu me enganara!

Os anos haviam secado minha alma ao sol da espera. Mesmo que te via, sei que dentro de mim já havia um domínio da mente, da razão. Uma luta secular que já mostrava um vencedor. E a fugaz manifestação da velha chama foi logo apagada pelos apelos duma mente já cansada de desejar algo tão belo e intocável. "Pobre de mim", era o que eu pensava. Centenas de olhares, tantas e tantas vezes lançados, nenhum correspondido. Era uma falha muito gostosa de cometer, mas deveras dolorosa de repetir. Resolvi seguir a direção do sol, e deixar teu rastro para trás.

Hoje, pensar em você não é frustração. Nem sei mais se consigo lembrar do teu rosto. Passaram-se cinquenta anos, e a minha memória está corroída pelo tempo. Eu não me prendi em novos grilhões, estou sozinho em meio a terras e mais terras, fruto do único amor correspondido que tive na minha vida, o trabalho. Não penso que seria feliz ao teu lado, o que me convence é achar que você teria sido feliz ao meu. Não sei como, mas sei. E é tão grande a vontade de te ver novamente. Do tamanho da minha tristeza. Assim eu olharia, mais uma vez, para a última mulher que eu amei.
 
Cheers!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os Portões do Mar

Há uma profunda tristeza em seus olhos. E uma inquietação perturbadora. Todos se afastam de seus olhares fulminantes e de sua fala eloquentemente sedutora. Mas sabemos que você seduz para nos levar à derrota, grande Irmã. Você seduz para nos tirar a essência, para nos ludibriar e nos arrastar para o fundo de nosso desânimo. E assim você ganha!

Roubastes joias e fortunas. Ganhastes nomes e títulos. Criastes fama e respeito dos fracos. És mesmo uma grande invocadora dos piores e maiores medos. E os humanos nada podem contra ti quando estás disposta contra eles. Sofrimento e arrependimento são armas em tuas mãos. Jamais conhecerei quem tire das fraquezas dos outros a sua própria fortaleza.

Mas te escondes de mim, grande Irmã!

Sei de tua tristeza. Tu já fostes a flor mais selvagem dos campos mais vastos. Já iluminastes muitos sorrisos que te viam como expressão singela do que é belo neste Mundo. Já te desejaram bem e já tivestes muitos Seguidores. Então você conheceu a Ruína. E todos nós vimos tua ruína. Todos nós, lembre-se, já experimentamos a Ruína. Pois isso vem a Todos os Antigos.

Então tu te esconde de mim, grande Irmã! Sua tola!

Você sabe que eu enxergo além da matéria. Eu sei de coisas que você mesma não consegue omitir de si mesma! E toda essa sua tolice é para mim apenas um atraso e um infortúnio. Incapaz de querer compaixão, você segue tentando se esconder, mal sabendo que te vejo em toda a sua tristeza e manipulação. E até que os Humanos não mais te percebam, suas vítimas são o rastro mais evidente de que você ainda age em sua Queda.

Tens medo de meu julgamento! Logo tu, que se agradava com o menor som de minha voz! Agora tens medo de me encarar, e foges. Mas eu te digo: não por muito tempo. Nem matéria nem sua arcana arte da enganação irão te esconder de mim. Quando eu levantar de meu Sono, grande Irmã, o meu esplendor trará luz à tudo que vens fazendo em sua Queda, e revelará a todos o real motivo de sua ruína. Essa tua tristeza sem limites.

Não haverá arrependimento, portanto, não temas meu esplendor. Serei justo! E sei que você voltará para o centro do Vórtice, para onde Todos os Antigos voltarão, junto de mim, seu irmão Mais Velho. E serás amada novamente. E serás a minha grande Irmã novamente!

Cheers!

Blecaute inofensivo

As luzes e muitos olhos brilham.

Sou sacudido por uma forte explosão sônica, alerta e mau trapilho. Suavemente busco alguma ideia mais forte do que fugir. Não consigo parar de pensar em correr. Medo. Aquelas luzes estão longe, e ao mesmo tempo tão perto.

Será que existe no Universo algo que preencha o vazio de algumas almas? Pretendo tentar encontrar. Não hoje.

Cheers!